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10/09/2009, 11:53

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Negativo

Foto de slimmer_jimmer (CC)

Manu se prepara, leva os braços ao alto, mas na hora H, segura o buquê. Alarme falso. As meninas fazem burburinho e se agitam ainda mais. De repente, lá vem o buquê pelos ares e clique, clique, Samuca consegue duas fotos perfeitas. Já perdeu a conta de quantas noivas tentaram passar a perna nas amigas na hora do buquê. Mas, não há noiva que consiga enganá-lo. Dez anos fotografando casamentos ensinam alguma coisa.

Depois de tirar a foto do abraço de Manuela com a vencedora da disputa, sua prima, Cris, Samuca olha o relógio e confirma a suspeita. Está tarde. O relógio marca duas e meia da manhã. A festa continua animada e os bêbados desfilam pelo salão com característica falta de coordenação e excesso de desinibição. Hora de partir.

Ainda não são três da madrugada e Samuca entra com o carro na garagem de casa. Cidade pequena pode ter seus problemas, mas distância definitivamente não é um deles. No fim das contas, há que se concordar que morar em São João da Barra tem lá suas vantagens.

De cada bolso da calça tira dois rolos de filme. Rebobina o último, tira da máquina, e junta aos quatro que já estão na escrivaninha. Quer colocá-los para revelar logo cedo, na segunda-feira. Está animado com o avanço das coisas. Esse ano de 1989 está cheio de novidades. O Muro de Berlim acabou de cair e com ele o império soviético vai se desmoronando. As eleições presidenciais se aproximam e a Globo insiste em enaltecer o Collor e denegrir o Lula. Já se vê quem vai ganhar. Mas o importante mesmo é que a revelação das fotos está mais rápida a cada dia.

Tá certo que Manuela não vai ver as fotos tão cedo, primeiro vai curtir as duas semanas de lua-de-mel em Guarapari. Mas sua mãe, Dona Aurora, está ansiosa. Já quer passar no estúdio na terça à tarde para ver as fotos. Independente do que a filha escolher para o álbum, quer selecionar algumas para si própria.

Samuca não se faz de rogado, quer mais é encontrar Dona Aurora e torce para que traga também Vó Betina. Se conseguir vender umas cinquenta fotos para as duas, já começa bem o mês. E é bom que seja assim, porque filho novo na escola parece consumir mais dinheiro que dondoca em shopping center.

Não é de hoje que Samuca aprendeu a faturar com a fotografia. Funciona assim: ele vende a cobertura do evento, que inclui um álbum de provas e um álbum maior, com sessenta fotos ampliadas. Isso dá um bom trocado. Mas, o melhor vem depois. É o que ele chama de venda de impacto. Ele traz a noiva e o resto da família dela, para escolher as fotos dos álbuns no próprio estúdio. Aí o povo fica encantado e começa a pedir cópias das fotos. São cópias para a mãe, a avó, a tia que mora longe, a prima, a melhor amiga, até a diretora do colégio onde a noiva estudou a vida toda.

Samuca cobra bem por cada cópia. Com uma mão anota os pedidos, com a outra sugere outras fotos que também merecem ser copiadas. É claro que revelar uma foto não custa tanto quanto ele cobra, mas como só ele tem o negativo, não há muito o que fazer. Quem quer a cópia de uma foto tem que lhe fazer um pedido e pagar o preço. Mas, veja que povo alegre! Todo mundo tão feliz de ver as fotos do casamento. Ninguém nem se preocupa com o que vai ter de gastar. Também, convenhamos, não é toda hora que uma moça casa né? Há que se guardar as recordações!

Estava quase na hora de fechar o estúdio quando Dona Aurora partiu com as outras. Não só tinha trazido Vó Betina, como também vieram a tiracolo uma sobrinha, que falava pelos cotovelos, e uma tia um tanto larga, por assim dizer. Quase se foi uma cadeira do estúdio. Mas, não faz mal, Samuca está contente. Vendeu oitenta e sete fotos, bem mais do que esperava. No final ainda deu três de brinde para fechar “redondo” em noventa. Estava generoso.

Samuca estava no auge de sua carreira de fotografia. Só dava ele naquelas bandas. Foi para casa tranquilo, com aquela sensação de quem tem tudo sob controle. Melhor curtir esse momento. Haverá outros assim. Queiram os céus que o tempo passe lento. Soubesse ele o que lhe espera naquele fatídico setembro de 2009, teria se agarrado aos ponteiros do relógio para impedir que avançassem. Ficaria em 1989 para o resto da vida. Esse é o lado ruim de estar no topo. Quanto mais alto, maior é o sofrimento da queda. Mas ainda há tempo. Por enquanto, seu problema mais sério é o Marcus, mas ele ainda nem sabe disso…

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Esse é o primeiro capítulo de uma série posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Embora Joana ainda não tenha aparecido nesse primeiro capítulo, você já poderá conhecê-la no próximo, que será publicado amanhã.

O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.

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Espero que você goste.

By Vinícius Teles. Disponibilizado como Creative Commons Atribuição 2.5.

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