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Foto de Deana (CC)
— Jubi, preciso da sua ajuda.
— Que foi, garota?
— A mulher do Nando quer que eu coloque as fotos do casamento na internet. Mas está tudo uma droga. O que faço?
— Como assim? O que aconteceu lá na casa do Nando? Joana, você ainda não me contou nada.
É verdade, Joana ainda não havia contado nada para Jubi, sua melhor amiga. Aliás, não apenas melhor amiga. Era praticamente uma irmã. As duas se conheceram bem cedo, no jardim de infância. E nunca mais se separaram. Quer dizer, até o dia em que Jubi mudou-se para Niterói. Mas, a distância não mudou muito as coisas, a não ser as contas de telefone. No início eram quase impagáveis. Seu Zé chegou a ter o telefone de casa cortado mais de uma vez, tamanho o problema que aquilo causou.
Felizmente a internet veio depois de algum tempo e aliviou a situação. As trocas de email ajudaram a reduzir as contas, até que as duas começaram a usar o Skype. Aí, finalmente, o telefone deixou de ser um problema. Nunca mais foi usado por elas. E hoje, como ambas utilizam Macs, tendem a conversar pelo iChat a maior parte do tempo. Mas, o que interessa mesmo não é isso. O importante é saber que as duas não apenas comunicam-se diariamente, apesar da distância, como tomam todas as decisões com a ajuda da outra. O fato de serem muito diferentes nunca as impediu de se compreenderem mutuamente.
No lado profissional, Joana sempre teve o perfil de nerd. Era a melhor aluna da sala, a mais estudiosa, aquela que os professores adoravam. Jubi, por sua vez, era a empreendedora. Começou a se sustentar bem novinha. Teve inúmeras fases na escola. Fazia chocolate caseiro para vender para as colegas de classe, revendia bijuteria, bolsas, sanduíches, cada hora uma coisa nova. Dava seu jeito com as matérias, mas o que gostava mesmo era de negociar e “inventar moda”, como diziam as tias e os colegas.
No fim da adolescência mudou-se para Niterói com a família. Por lá, começou a fazer faculdade, mas não se empolgou muito. Tinha outros interesses mais urgentes. Abandonou-a ainda nos primeiros períodos. Em certa altura, assumiu o comando da loja da mãe. Fez uma revolução por lá. No processo, virou decoradora e especializou-se na criação de maquete eletrônica. Hoje trabalha em casa, na maior parte do tempo, atendendo clientes de todo o Brasil. É mais uma dessas modernosas empreendedoras do novo milênio, da Era de Informação. Na verdade, pode trabalhar em qualquer lugar do mundo. Basta estar com seu notebook a tiracolo.
Joana nutria por ela uma admiração que mais parecia tietagem em torno de celebridades internacionais. Achava Jubi a pessoa mais esclarecida que já tinha conhecido. Era a única que nunca tinha dúvidas sobre suas decisões. É como se Jubi sempre soubesse o que precisava ser feito. Acreditava nas próprias escolhas, sempre, e fazia o que precisava ser feito para que tudo desse certo. Claro que isso envolvia uma dose colossal de otimismo, o que para Jubi era como o ar que respirava.
Aliás, pessimismo com certeza era uma palavra inexistente em seu dicionário todo particular. O qual era densamente povoado por expressões como perseverança, oportunidade, estratégia, inovação, paciência, enfim, termos que tipicamente seriam considerados o cliché do cliché do empreendedorismo. Mas, no caso de Jubi, todos eles simplesmente faziam sentido. Eram a descrição mais cristalina do comportamento dela.
Houve uma única ocasião em que a amizade fora abalada. Mas, isso não vem ao caso no momento. Importante é saber que, de certa forma, Joana começou a trilhar o caminho acadêmico porque lhe pareceu o mais confortável e o mais alinhado com sua personalidade. Mas, no fundo, sempre pensou se não seria melhor ser como Jubi, uma empreendedora, que cuidava de sua própria vida, sem ter de prestar contas a nenhum chefe, mas ao mesmo tempo tendo inúmeros patrões, cada um de seus inúmeros clientes.
Pensando melhor, será que toda essa história da fotografia não foi simplesmente uma forma de começar a seguir os passos de Jubi? Será que era isso mesmo que Joana queria para si? Isso foi o que passou pela cabeça dela enquanto terminava de contar a Jubi sobre os acontecimentos na casa de Nando e as preocupações de sua mãe sobre os rumos de sua carreira acadêmica. Então voltou à questão:
— E então, o que faço?
— Que tal decidir o que quer da vida? — disse Jubi sarcasticamente.
— E que tal você catar coquinho?
— Tudo bem, amiga, vamos lá. Façamos aqui um exercício. No momento, o único problema urgente que você precisa resolver é a questão das fotos na internet, certo?
— Hum, certo. — disse Joana sem muita convicção. Deveria consider o problema de resolver o que quer da vida como urgente ou não? Deixou isso de lado por enquanto. Queria ver onde o raciocínio de Jubi iria dar.
— Então vamos considerar duas possibilidades. Vamos chamar de Plano A e Plano B. Plano A: você continua fazendo sua faculdade, vira pesquisadora e essa coisa da fotografia não terá sido mais que um passatempo momentâneo. Plano B: você vira fotógrafa profissional, ao invés de bióloga e pesquisadora. Tudo bem? Está me acompanhando até aqui?
— Aham — respondeu Joana afirmativamente.
— Então agora vem a parte importante. Se você seguir o Plano A, por que você não colocaria as fotos na intenet? Em outras palavras, qual seria o problema de mostrar seu trabalho na internet?
— Eu passaria vergonha.
— Por quê?
— Porque o trabalho está feio.
— E se você passasse vergonha, por que isso seria um problema?
— Porque eu não vou mais saber onde enfiar a cara, ora bolas.
— Entendo. Alguém vai morrer?
— Como assim? — respondeu Joana, sem entender o propósito da pergunta.
— O que quero dizer é: qual a pior coisa que pode te acontecer se as pessoas acharem suas fotos uma porcaria? Você vai morrer? Alguém vai morrer? Você vai passar fome? Seus cabelos vão cair? Você vai ficar desempregada para o resto da vida? Vai morrer solteirona? Vai ter tanta celulite que nunca mais vai colocar um biquíni? Enfim, que tragédia é essa que poderia te acontecer?
Joana começou a perceber onde aquilo ia dar. Não seria a primeira vez que Jubi fazia aquilo. Sabia deixá-la desconfortável como ninguém. E era sempre da mesma forma, fazendo-a perceber quão bobos eram seus medos. E o que é pior, ela sempre tinha razão. Maldição! Lembrou-se de quando lhe disseram uma vez:
— Joana, bom senso é algo extremamente mal distribuído. Dez porcento das pessoas concentram todo o bom senso do mundo, deixando os outros 90% totalmente desamparados. E o irônico é que quem está nos 90% acredita que seu próprio “bom senso” é o certo, enquanto quem está nos 10% tem a humildade de duvidar do excelente bom senso que possui.
Jubi definitivamente está dentro desses dez porcento. E como! A sacana sempre via as coisas de uma forma única, que depois se mostrava óbvia.
— Ok, Jubi, entendi seu ponto. Se eu seguir pelo Plano A, colocar as fotos na internet e as pessoas detestarem, posso até ficar com vergonha um dia ou dois, mas no médio e longo prazo, isso não vai fazer nenhuma diferença na minha vida. Nada, nadinha. Se minha carreira estará na biologia, qualquer coisa que eu faça em termos de fotografia será irrelevante para meu futuro profissional. Portanto, o melhor a fazer é simplesmente dizer, dane-se! Qualquer resultado será um bom resultado, de um jeito ou de outro. Em suma, seguindo o Plano A, não há nada a temer. Devo simplesmente colocar as fotos na internet e seja o que Deus quiser.
— Bingo! — disse Jubi com seu característico risinho de quem acaba de dar o xeque-mate em uma partida de xadrez.
— Ótimo, já começo a me sentir mais aliviada.
— Muito bem. Vejamos agora o que aconteceria se você seguisse o Plano B.
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Esse é o nono capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.
O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.
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By Vinícius Teles. Disponibilizado como Creative Commons Atribuição 2.5.
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