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23/09/2009, 16:07

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Contradição

Foto de Josh Libatique (CC)

Após lembrar a Joana que o Plano B significava deixar a carreira acadêmica de lado, esquecer a Biologia e partir para a fotografia profissional, Jubi recomeça:

— Se você se tornar uma fotografa profissional, por que você não colocaria suas fotos na internet?
— Pelo mesmo motivo de antes. Porque elas não estão legais. E nesse caso, se eu vou virar uma fotógrafa, seria mais grave ainda. — disse Joana.
— Por quê? — questionou Jubi.
— O que as pessoas vão pensar de mim, como profissional, vendo fotos como essas?
— Se alguém hoje fosse te contratar para fotografar um casamento, você teria outras fotos de casamento para mostrar?
— Não. E o que isso tem a ver?
— O que você mostraria?

Boa pergunta. Joana não tinha ideia. Como então queria virar uma fotógrafa profissional? É claro que não poderia. Não tinha um trabalho decente para mostrar.

— Não mostraria nada. — respondeu Joana.
— E quantos trabalhos você acha que fecharia assim?
— Provavelmente nenhum.
— Então me diga, o que seria melhor? Mostrar um trabalho que você acha que não está bom, mas correr o risco de agradar e fechar o negócio, ou não mostrar nada e ter a certeza de que nunca fecharia trabalho algum?
— Acho que a primeira opção seria menos pior.
— Isso Joana, esse é o espírito. “Menos pior”, perfeito, é exatamente o que você precisa entender.
— Como assim?
— Joana, existe algo que é o ideal, mas não está ao seu alcance no momento. Existe outra coisa que é muito aquém do ideal, mas está ao seu alcance. É a opção menos pior. Se essa é a que resta, não há muito o que discutir, agarre-a com unhas e dentes. O perfeito é um ideal que jamais é alcançado, mas sempre deve ser buscado. Porém, na busca pela perfeição, temos que estar prontos para aceitar o que é o “menos pior”, temporariamente. Não porque seja o destino ao qual desejamos chegar, mas porque é o passo disponível no momento para chegarmos mais próximo do perfeito. Em suma, se há alguma opção que fará você avançar e não há outra melhor, use-a. No caminho para a perfeição e o sucesso, ela será mais útil que ficar parada.
— Caraca, Jubi, você está com algum livro de autoajuda aberto na sua frente?
— E precisa, Joana?
— Bem, acho que no seu caso não. Já vem tudo no pacote do excesso de bom senso, né?
— Engraçadinha…
— Jubi, deixa eu ver se entendi bem. Como este é o único casamento que já fotografei, é melhor mostrá-lo que não mostrar nenhum. Certo?
— Certíssimo. Sempre lembrando que, à medida que você fizer outros casamentos e for evoluindo, não precisará mais mostrar para ninguém este primeiro. Portanto, o casamento atual será usado provisoriamente, enquanto você não tiver outro melhor à disposição.
— Perfeito, faz sentido. Mas ainda assim, Jubi, uma coisa é mostrar essas fotos para alguém que eu vá visitar, por exemplo. Outra bem diferente é colocar na internet para todo mundo ver. Você não acha?
— Claro, acho sim. Como também acho que se você colocar suas fotos na interntet, vai correr o risco de alguém te achar e querer conversar com você. É arriscadíssimo, porque no final, essa pessoa pode acabar fechando negócio com você. Já imaginou que tragédia? Melhor você esconder bastante essas fotos e ter a certeza de ficar no anonimato. Bem melhor, né? — disse Jubi ironicamente.
— Você acha melhor que todos me conheçam, mesmo que o trabalho não esteja bom? — perguntou Joana.
— Você prefere o quê? Jamais ser procurada porque ninguém sabe que você existe?
— Ai, Jubi, isso me dá tanto medo.
— E ficar a vida inteira sem trabalho porque ninguém te conhece? Isso não te dá medo não?
— É, olhando sob esse ponto de vista…
— Você teria algum outro para oferecer, Joana?

Como era difícil conversar com Jubi. Será que algum dia Joana venceria uma disputa com ela? Seu pessimismo a informava que não.

— Ok, Jubi, entendi a ideia. Mas, acho que você não está levando em conta uma coisa.
— O quê?
— E se tudo der super certo e as pessoas começarem a me chamar para fazer casamentos? E se eu estiver errada e o trabalho não estiver tão ruim? E se eu “bombar”? Aí como fica? Porque ainda que eu não vá seguir a carreira de bióloga, já estou no último período. Não vou largar agora. Ainda tenho que fazer as aulas desse semestre.
— E quando as pessoas se casam, Joana?
— Normalmente aos sábados.
— Você tem aula aos sábados, querida amiga?
— Não.
— Então você pode me informar onde está o problema?
— Já ouviu falar de tratamento de fotos, Jubi?
— Já. E você já percebeu que quem procura acha?
— Como é que é?
— Joana, você não pode estar no casamento e na aula ao mesmo tempo. Porém, isso não vai acontecer, porque os casamentos são no fim-de-semana e as aulas durante a semana. Se você fizer inúmeros casamentos, vai ter que dividir bem o seu tempo para fazer os trabalhos da faculdade e ainda tratar as fotos. Mas, qual é a novidade nisso? O que é que um estudante de graduação mais é desafiado a fazer, senão dividir bem o tempo, priorizar, se organizar? Ainda mais você. Então, para mim está claro que se for necessário, você vai dar seu jeito. Vai achar o tempo de que necessita tanto para a faculdade, quanto para os tratamentos de foto. Além do mais…
— Tem mais?
— Claro. Como ia dizendo, além do mais, a possibilidade de você ter milhões de casamentos para fazer ao longo desse semestre é baixa. Primeiro porque você é novata e, portanto, tende a fechar poucos eventos neste início. Isso é normal. Segundo porque as pessoas tipicamente marcam casamentos com bastante antecedência. Portanto, você pode até chegar a fechar um bom número de eventos durante o semestre, mas provavelmente só terá de fotografá-los mais para a frente, depois que o semestre tiver terminado.
— Putz, Jubi, o pior é que você não apenas tem razão como isso tudo agora me parece ridiculamente óbvio. Que tonta que eu sou.
— Que nada amiga. O que me beneficia é estar de fora. Já reparou como os outros tendem a nos conhecer bem melhor que nós mesmos? Assim é a natureza humana, muito estranha.

O filete de luz que havia aparecido no fim do túnel já começava a se transformar em algo mais encorpado. Joana estava começando a enxergar as soluções. Ponto para Jubi. Ainda assim, havia outra questão.

— Mas, Jubi, sejamos super otimistas por um instante. E se eu realmente “bombar” muito, muito mesmo? Tipo, toda hora tem gente ligando, procurando, uma correria só. E aí, como fica?
— Fácil, vende a receita.
— Hein?
— Tá de sacanagem, Joana? Um mar de gente te procurando para fazer casamentos em São João da Barra? Não seria necessário criar mais pessoas por aí antes disso? — ironizou, Jubi.
— Tudo bem, isso é verdade. Mas, vai que eu passe a fazer eventos em outras cidades. E faça muito sucesso. E aí?
— Olha, Joana, problema é não ter gente querendo te contratar. O que você está descrevendo não é um problema, é uma dádiva. Se você tiver um monte de gente querendo seus serviços, a tal ponto que você não consiga atender a todos, simplesmente negue. Atenda quem você puder e negue os demais serviços. Não há nada de errado nisso. Ou então, monte outras equipes e pegue cada vez mais trabalhos. Seja como for, você não precisa pensar nisso agora. Deixe as coisas acontecerem. Deixe os problemas reais aparecerem. Quando chegarem, pense neles. Pare de criar problemas agora, porque isso não vai te levar a nada.
— É, acho que você tem razão.

Havia muita coisa nova para Joana. Empreender era algo completamente novo para ela. Aquela conversa com Jubi estava mostrando que, não apenas seus “problemas” eram mais comuns do que lhe pareceu à primeira vista, como havia realmente uma solução coerente e vantajosa para cada um deles.

Antes de conversar com Jubi, tinha o sentimento de que tudo aquilo era impossível de resolver, que ninguém nunca tinha passado por aquelas questões e, portanto, jamais poderia ajudá-la. Estava completamente enganada. E ainda tinha mais.

— Outro ponto que você deve ter em mente, Joana, é que expor seu trabalho não é bom apenas porque te dá a chance de vender. É sobretudo bom porque te dá a chance de aprender. Você passa a ter feedback, a saber o que as pessoas pensam, o que agrada, o que não é bem recebido, o que faz chorar, o que encanta e o que as pessoas não gostam. Isso é muito valioso porque te ajudará a melhorar rapidamente. É claro que dentro de algum tempo você será uma fotógrafa muito melhor do que é hoje. Porém, o quão melhor você vai ser é diretamente proporcional à quantidade de feedback que você receber. Quanto mais melhor. Pense sempre nisso! Busque feedback, feedback e feedback. Use o que aprender para melhor e obter ainda mais feedback. Para isso, se exponha. É o único jeito de obter o feedback necessário.
— Nossa, Jubi! Nunca tinha pensado nisso. Sempre fiquei acanhada na hora de mostrar um trabalho para alguém. É muito desconfortável.
— Com certeza. Nem sempre o feedback é positivo. Nem sempre gostam do que você faz. Mas, isso é bom. É bom você saber, por mais desconfortável que seja. Pense comigo, é melhor ser desconfortável e fazer você melhorar logo ou passar a vida toda achando que está fazendo algo bem, porém nunca saber que precisava ser aprimorado? Você vai sempre ter um resultado medíocre se trilhar esse caminho. Pode acreditar.
— Acredito, só não sei ainda se conseguiria ser assim tão desapegada. Não sei se meu ego sobreviveria. Quantos feedbacks negativos seriam necessários para me derrubar e fazer largar tudo? Talvez poucos.
— Deixe de drama, Joana. Vai dar tudo certo. Com certeza será doloroso em alguns momentos, mas você vai amar cada minuto dessa jornada.
— Aí, que medo! Não sei não, Jubi, quero chegar lá, mas não sei se aguento a pressão. Tô realmente com medo de colocar essas fotos na internet, queimar meu filme e nunca mais conseguir vender um trabalho.
— Joana, você precisa entender uma coisa desde já. Tudo isso que estamos discutindo não é o que realmente importa. Não é o que vai fazer você vender mais ou menos. O que importa mesmo é compreender outra coisa. Há um valioso “segredo” que os melhores empreendedores conhecem muito bem. É o que faz a diferença, é o que os leva a vender muito. É isso o que você precisa aprender. Agora.

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Esse é o décimo capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.

O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.

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By Vinícius Teles. Disponibilizado como Creative Commons Atribuição 2.5.

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