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Foto de Mikhil (CC)
Joana acabava de ter uma revelação. Ao menos era assim que ela se sentia, como alguém que finalmente encontrara o sentido mais profundo de algo. Em sua cabeça, inúmeros pensamentos disputavam a atenção. Mal percebia o que se passava a sua volta, até finalmente se dar conta do som que saía do autofalante do computador. Era Jubi, chamando por ela, perguntando se estava tudo bem. Durante alguns segundos Joana tinha se desligado desse mundo. Tinha descoberto o segredo.
— Jubi, depois de todo esse papo do McDonald’s, acho que já sei qual é o segredo que você está tentando me transmitir.
— Que ótimo, Joana. Qual é?
— O que percebi da sua explicação é que há várias coisas importantes que o McDonald’s faz, que contribuem para o seu sucesso. Tais como propaganda, atenção com a identidade visual, o cuidado com o fornecimento e assim vai. Cada uma dessas coisas é importante. Entretanto, não seria possível definir o sucesso do McDonald’s como sendo fruto de um desses fatores apenas. Não dá para dizer que há esse fator em particular, ou aquele, que determina seu sucesso.
— Por que não?
— Porque, por exemplo, se o McDonald’s tivesse as melhores propagandas de TV do planeta e elas fossem veiculadas a cada dois minutos, isso seria inútil, se eles não fossem capazes de abastecer as lojas com competência. Se houvesse sempre produtos faltando, eles não seriam o que são.
— Que bom que você percebeu isso, Joana.
— Pois é, foi assim que entendi o que você estava querendo me dizer o tempo todo. Ao menos, acho que era isso. O segredo é o conjunto. Não há um fator que seja o mais importante de todos. Há, isso sim, todos os fatores, que juntos determinam os resultados que um negócio vai obter.
— Bravo!
— É isso mesmo, Jubi?
— Exatamente. Não poderia ter descrito de maneira melhor. Parabéns! Acho que agora você entende a razão por que descrevi tantos aspectos do McDonald’s, né?
— Sim, você queria que eu entendesse que trata-se de um negócio com inúmeras dimensões e cada uma delas tem a sua importância. Mas, ao mesmo tempo, nenhuma delas individualmente é suficiente para determinar o sucesso da empresa.
— É isso aí.
— Então, Jubi, fale-me mais sobre essa questão do conjunto.
— Como você bem colocou, o que importa em um negócio é a soma final de um conjunto de fatores. Portanto, o segredo do McDonald’s não é o hambúrguer. É o sistema deles, que é uma outra forma descrever esse conjunto.
— Desculpe se isso for viagem do meu lado bióloga, mas quando você fala em sistema, logo me vem à mente a ideia de um organismo vivo. Então, é como se o McDonald’s inteiro fosse um mecanismo vivo?
— Exatamente.
— Neste caso, isso seria mais uma prova de que as partes, vistas isoladamente, não explicam o sucesso do McDonald’s, né?
— Como assim, Joana?
— É que se pegarmos um organismo, por exemplo, o próprio corpo humano, é importante que todas as partes funcionem adequadamente para mantê-lo vivo. Não adianta ter o melhor pulmão do mundo e rins que não funcionam. Não adianta ter um coração de atleta, se o cérebro não funcionar. E assim por diante. Arranque um órgão de uma pessoa e ela provavelmente morrerá. Mas, o fato de haver aquele órgão, por si só, não é suficiente para a pessoa estar viva e com saúde. Nas pessoas mais saudáveis, não apenas todos os órgãos precisam trabalhar bem, como também precisam cooperar entre si adequadamente.
— Excelente, Joana. Não tinha me dado conta que ser bióloga é uma vantagem para quem quer compreender o mundo dos negócios.
— Muito menos eu.
— Outra coisa, Joana, quando falo que o importante no McDonald’s é o sistema, tento passar não apenas a ideia de conjunto, mas também de dinamismo, de movimento, de fluidez. Algo que tem a ver com o relacionamento entre os componentes desse conjunto.
— Hum, guenta aí. Essa eu acho que a bióloga aqui consegue captar também.
— Então diga-me.
— Um sistema vivo não é estático. Ele é dinâmico. É como uma pequena fábrica que está sempre em operação. Há um fluxo constante. Por exemplo, durante o dia, uma pessoa se alimenta, faz a digestão e elimina os restos. Então há um fluxo: ingestão, digestão, remoção dos restos. Com a respiração é a mesma coisa. Inspirar e expirar. Nas células, idem. Elas se alimentam e eliminam os restos. E assim vai. Então há sempre um fluxo de entrada e saída. Se esse fluxo pára, a pessoa morre.
— Certo, Joana. E o que isso tem a ver com o McDonald’s?
— Ora, é a mesma coisa. É um sistema onde as coisas fluem, como em um organismo vivo. Se a carne não chegar, o sistema trava. Não se consegue vender. Se os funcionários fizerem greve, idem. Se estiverem insatisfeitos e começarem a atender mal os clientes, as vendas caem. Se parar de fazer propaganda, as pessoas esquecem da marca. Se não tiver brinquedinhos para oferecer para as crianças, os pais param de ir lá. Se não houver treinamento adequado para os novos funcionários, começa a faltar gente para atender os clientes. Se os computadores dos caixas travarem, as pessoas não conseguem pagar. Enfim, há vários elementos, há um fluxo constante de compras acontecendo, que leva sanduíches a serem preparados. Essa preparação leva a novos pedidos de carne para reabastecer. Para operar tudo isso, contrata-se funcionários, o que leva à necessidade de treinamentos. A necessidade de vender leva o McDonald’s a fazer propagandas e assim vai.
— É isso aí. Acho que você realmente pegou o espírito da coisa. Agora você entende o que tudo isso tem a ver com sua nova área, a fotografia?
— Acho que sim.
— Entendeu por que, do ponto de vista dos negócios, você não deve ter medo de colocar suas fotos na internet?
— Porque a foto é apenas um dos fatores relacionados ao meu trabalho, assim como o hambúrguer do McDonald’s é apenas uma das partes de um conjunto maior. Sozinha, a foto não será capaz de determinar se irei vender mais ou menos. Não é isso? Afinal, o que importa é o conjunto, que envolve muitas outras coisas, como marketing, definição de preços, pacotes, álbuns, relacionamento com pessoas influentes no mundo dos eventos e várias outras questões. Além disso, colocando as fotos na internet, eu crio um fluxo, crio movimento. As pessoas vão ver, vão conversar comigo, eventualmente vão fechar negócio e assim a roda vai girar. O simples fato de colocar as fotos no ar já me ajudará a criar esse movimento.
— Isso mesmo, Joana. Pois é essa questão do movimento e do conjunto que me fazem ter vontade de rir quando alguém “esconde o jogo”, na tentativa de evitar que eventuais concorrentes descubram “o pulo do gato”. Não tem essa de “pulo do gato”. O que tem é muito trabalho e atenção com cada um dos detalhes que compõem um negócio.
— É mesmo.
— E é exatamente essa questão do conjunto que torna muito difícil copiar um negócio bem sucedido.
— Como assim? - questionou Joana.
— Para que outra empresa de fast food supere o McDonald’s, é necessário que o conjunto dela seja melhor. Isso implica em cuidar de uma quantidade enorme de detalhes de modo superior ao McDonald’s. Se fosse só um “pulo do gato”, seria muito mais fácil. Bastaria copiar aquele item em particular e tudo estaria resolvido. Mas, não é.
— Então, Jubi, pensando um pouco nisso para o caso da minha área, a fotografia, percebo agora o quão patético é a atitude de inúmeros profissionais que tentam sonegar informações, muitas vezes na tentativa de evitar que os novatos cheguem ao mercado, porém, sem se dar conta de que isso é inútil. Tanto porque atualmente a informação é abundante, está na ponta dos dedos, quanto porque o novato, para fazer melhor que o mais antigo, precisa criar um sistema melhor. Não bastará que a foto seja melhor, ou que o marketing seja melhor, ou qualquer outro fator em particular. Tudo tem que ser melhor.
— Justamente. Além do que, quando alguém tenta impedir que um concorrente conheça seu trabalho, também está impedindo clientes potenciais de conhecê-lo. Isso impede o movimento, impede o fluxo natural do sistema. Em outras palavras, a roda não gira. E o único prejudicado é aquele que está tentando “segurar” a informação. — disse Jubi.
— O que também me leva a perceber que conduzir uma empresa é muito mais difícil do que parece. Justamente porque é preciso dar atenção a muitos fatores. Então, o desafio consiste em não negligenciar nada, não é? E isso deve ser bem complicado de fazer. Porque precisa realmente de muita atenção com os detalhes.
— E como!
— Lembrei de algo sobre essa questão do conjunto. Quer ver uma coisa básica, que muita gente faz errado?
— O que, Joana?
— Muitas vezes, na internet, as pessoas se comportam como se fossem analfabetas. Escrevem de qualquer jeito, sem o menor cuidado. Por exemplo, escrevem um e-mail e não releem para saber se o que foi escrito faz sentido e se há erros de português. É um detalhe, sem dúvida, mas é muito importante.
— Nem me fale, se eu te contasse a quantidade de e-mails de clientes que recebo que são impossíveis de compreender.
— Agora imagine o dono de uma empresa escrevendo como se fosse um analfabeto. Quem vai querer fazer negócios com ele? Se é desleixado com algo tão básico quanto a escrita, imagine o que se pode esperar dos serviços da empresa dele.
— Putz, Joana, falando em cliente, que droga, a gente está aqui conversando há horas. Não vi que tinha se passado tanto tempo. Preciso terminar uma maquete eletrônica para amanhã cedo. Tenho reunião com o cliente às 9h. Caraca, estou perdida.
— Ai amiga, desculpa. Foi mal, mesmo, não queria te atrapalhar.
— Tudo bem, não tem problema, vou dar meu jeito. Gostei de conversar contigo e dar uma forcinha. Espero que você realmente siga o rumo da fotografia. Vou ficar muito orgulhosa e feliz de ter uma amiga empreendedora. Confio muito em você! Sei que se seguir por esse caminho, vai se dar bem. Ficarei torcendo.
— Muito obrigada, Jubi. Obrigada de verdade.
— A gente se fala depois. Beijos.
Já tinham se passado nove meses desde aquela longínqua conversa com Jubi. Mas, Joana todo dia repetia para si mesma: é o conjunto que importa, é o conjunto. E era sempre a mesma preocupação. Como posso fazer meu conjunto ficar melhor hoje?
Pelo menos hoje, nesta segunda-feira da última semana de setembro de 2009, mais um item acaba de ser aprimorado. Joana sorri e a admira. Linda, majestosa! Por fora, não muito diferente das anteriores, é verdade, mas faz uma foto de tirar o fôlego. Nem acredita que tem uma Nikon D700 nas mãos.
Ela até tentou resistir. Já tinha visto várias pessoas comentando na internet sobre a câmera, mas desde o dia em que conversou com a Fabricia Soares, aquilo não saiu de sua cabeça. Não só porque a Fabricia é uma das fotógrafas que ela venera, mas também porque a argumentação foi implacável.
No fim das contas, a internet não é feita só de anjos. Há também as fadas madrinhas. Fafa, apelido natural da Fabricia, não poderia ser mais apropriado. Fada Fabricia: Fafa. Pois ela lhe mostrou que a D700 faz milagres em ambientes pouco iluminados. E essa era exatamente a dificuldade que Joana mais enfrentava nos últimos tempos, com sua já surrada D300.
Ah sim, a D90 não foi suficiente. Com a grana dos primeiros trabalhos, uma das primeiras coisas que fez foi comprar uma D300. Mas, estava complicado de continuar a usar apenas ela, sobretudo nesses ambientes com pouca iluminação. Agora, olhando para a nova câmera, tinha a esperança de que as coisas melhorassem.
Foi no computador para mandar um tweet para a Fabricia. Queria avisá-la que a câmera tinha chegado, bem como agradecer pela excelente dica e por ter sido tão convincente na argumentação. Quando abriu o Twitter, quase deu um pulo da cadeira. Como assim?
Havia um tweet da Patricia Figueira, amiga da Fabricia e outra fada madrinha, anunciando uma palestra sobre marketing na internet. Não é possível! E o mais incrível, era de graça e ela ainda poderia assistir no próprio computador, sem sair de casa. É bom demais para ser verdade. Ainda mais para alguém morando em São João da Barra.
Joana rapidamente preencheu o formulário de inscrição. Em seguida, ainda agitada com a boa notícia, largou o computador e voltou para a câmera. Quando a colocou na mão, lembrou. Tinha esquecido de mandar o tweet da Fabricia.
Voltou para o teclado e enviou um tweet super carinhoso, agradecendo a ajuda da madrinha e já ia fechar quando viu novamente o tweet da Patfig anunciando a palestra: marketing na internet, no mundo da abundância. Mundo da abundância… Que irônico! Era justamente o mundo da abundância que tinha permitido que ela chegasse até aqui.
Carregou os tweets mais recentes no Tweetie, o cliente do Twitter mais bacana que já havia conhecido, e de repente apareceram vários retweets do mesmo link que levava para uma página de uma comunidade do Orkut. Aparentemente era de uma noiva chamada Carla, cuja história estava chocando as pessoas. Começou a ler e quanto mais avançava no texto, mais ficava de queixo caído.
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Esse é mais um capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.
O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.
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By Vinícius Teles. Disponibilizado como Creative Commons Atribuição 2.5.
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