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Foto de William Murphy (CC)
Carla tem vinte e sete anos, quatro irmãs e nove sobrinhos. É claro que as irmãs já se casaram e tiveram filhos. Carla, embora seja a mais velha, é a “encalhada”. Apelido não muito carinhoso, muito menos caridoso, criado pelas maninhas. Também pudera, Carla foi a única que saiu de São João da Barra e foi para o Rio estudar. Se formou em Geologia, na UFRJ e hoje trabalha em Macaé, em uma grande empresa que presta serviços para a Petrobrás. Vai casar em novembro, em São João da Barra, onde sepultará de vez o malfadado apelido. Pelo menos essa é a intenção.
Os dias de Carla são corridos. Trabalha-se muito. Ainda mais em tempos de pré-sal, termo que alojou-se de vez no repertório do presidente Lula. O até então onipresente “cumpanheiro”, ganhou a companhia do “pré-sal” no vocabulário presidencial. Não fosse o pré-sal suficiente para preencher os dias de Carla, agora tem que ocupar-se também com o casamento. Não vá ela esperar muito do Betinho, né? Porque aquele ali não vai resolver é nada. Autêntico noivo, sempre dá a última palavra: sim, benzinho. Portanto, cabe a ela fazer as escolhas e a ele acatá-las. Bela divisão de responsabilidades!
Carla trabalha o dia todo e na maior parte das vezes a jornada se estende noite adentro. Seja no escritório, seja em casa, finalizando não sei quantos relatórios. E claro, há que se considerar também as noites da pós. Duas vezes por semana tem aulas na pós-graduação, depois do trabalho. Chega em casa pouco antes da meia-noite. O fato de ter que entrar no trabalho todo dia às 8h é só um “detalhe”, até porque, é temporário. Serão apenas dois anos assim e o primeiro período letivo já terminou.
A preparação do casamento é apenas mais uma missão impossível, em sua atribulada vida de noiva moderna. E ainda tem um agravante. Não teve como marcar o casamento com muita antecedência. Tudo aconteceu muito rápido. O namoro durou um mês e meio. Daí Betinho já foi morar com ela, sem o conhecimento dos pais dela, que fique claro. Sendo essa uma situação insustentável, eles correram para marcar o casamento o quanto antes. A vida é assim, resolve-se um problema e criam-se outros. E quantos outros!
Porque para Carla, cada item do casamento representa um suplício. Tem que ver igreja, salão de festa, fotografia, filmagem, maquiagem, buffet, buquê, alianças, cerimonial, vestido, DJ, lembrancinhas, bem-casados, bolo, doces e muitas outras coisas. Algumas, inclusive, que Betinho nunca tinha ouvido falar. Por exemplo, ele não imaginava que havia profissionais especializados em fazer forminhas de doces. Mas, tem. E é mais um item importante que precisa ser resolvido por Carla, naturalmente.
O problema de ter tantos serviços é que cada um deles tipicamente é feito por um fornecedor diferente, seja uma pessoa, ou uma empresa. Então, veja o problema matemático diante dela. Suponha que tenha que contratar vinte serviços diferentes. Na prática, costuma ser bem mais do que isso. Mas, apenas para sermos bonzinhos, vamos fechar em vinte. Imagine que para cada item ela vá analisar uma média de cinco fornecedores. Se for assim, no barato, ela terá de conversar com cem pessoas.
Muitas delas terão de ser visitadas. Portanto, não há a menor chance de ela morrer de tédio nos fins-de-semana, que serão preenchidos com uma infinidade de visitas. Alguns fornecedores são bacanas, simpáticos e profissionais. Outros são desagradáveis, difíceis de lidar e pouco profissionais. Carla verá de tudo nessa jornada até o casamento. E terá de tomar muitas decisões. Ah, sim, e não nos esqueçamos de que vai gastar uma pequena fortuna no processo.
Se por um lado Betinho não ajuda, há que se dizer que já faz muito não atrapalhando. Antes fosse possível afirmar o mesmo da mãe e das irmãs. Porque essas se metem em cada detalhe. Se deixar, ficam o tempo todo no telefone com Carla. É difícil passar um dia sem que elas discutam. Ao ponto de Carla ficar feliz quando a chamam para uma reunião. Assim não tem que aturar os telefonemas da família, os quais devem ser bem chatinhos mesmo, porque para alguém ficar feliz quando é chamado para uma reunião de empresa grande, é porque a outra opção é muito ruim. Para os cínicos, fica aí a prova irrefutável de que não, reunião em grandes empresas não é a pior coisa que já inventaram depois dos impostos. Sempre dá para piorar ainda mais.
E falando em piorar:
— Droga, maldito site! Já é a terceira vez que passo vergonha hoje por causa desses sites nojentos com música! Será que nunca vão entender que site com música é um inferno para quem trabalha em um escritório? Aí, que raiva!!! E essa m… desse ‘pular introdução’? Pra que introdução? Como é que alguém em 2009 ainda faz uma coisa dessas? Será que não se toca? Será que ninguém entende o que é ser uma noiva? Calma, Carla, calma. Conta até dez. Lembre-se, ser chamada de “encalhada”, nunca mais. Vamos lá, continue a busca.
Resolver as questões do casamento durante o expediente de trabalho é errado, estritamente falando. Se está no trabalho, é para trabalhar, ora bolas! Entretanto, há que se pensar. Se ela não fizesse suas buscas durante o trabalho, quando faria? Quando chegasse em casa, à noite? Mas como? Se na maioria das vezes já chega super tarde? Será que não se tem o direito de viver e ser feliz? Nem que sejam por míseros dez minutos por dia, cinco de manhã, enquanto escova os dentes para sair e cinco de noite, enquanto escova os dentes para dormir?
Seja como for, seu caso não é excepcional. Pelo contrário. Dia desses tinha lido no blog da Patricia Figueira que seu site, um dos mais acessados sobre fotografia de casamento, tem sessenta por cento do movimento de segunda a sexta, de nove às dezoito horas. Ou seja, as noivas acessam mesmo é do trabalho! E faz sentido, porque a maioria trabalha fora e não tem outra opção.
Esse é um ponto que os fornecedores ainda não entenderam. O que é grave, porque é a primeira coisa que deveriam saber quando pensam em criar site. É preciso compreender quem é o cliente típico. Em se tratando de casamento, a cliente principal é a noiva. Então, compreendê-la é a missão maior de quem projeta um site para lhe oferecer serviços.
No tempo do Samuca, há vinte anos, as mulheres já trabalhavam, naturalmente. Mas, hoje em dia, elas não apenas trabalham muito, como vivem em uma sociedade onde todos têm a sensação de que o tempo escorre rapidamente pelos dedos da mão. Com poucas exceções, as noivas atuais são muito ocupadas. Sofrem pressões de tempo por todos os lados, seja no trabalho, na universidade ou em casa. Então, um site que se preze, tem que facilitar a vida da noiva. Facilitar é a principal missão de um fornecedor de casamento.
Portanto, o site tem que ser objetivo, ir direto ao ponto, permitir que o trabalho do profissional seja encontrado facilmente, seja fácil de ver, seja fácil de interagir e que seja muito fácil entrar em contato. Como a noiva está no trabalho, ela tipicamente tem momentos de cinco a dez minutos, em que o chefe se distraiu. Ela irá visitar um ou vários sites nesse período. Então, em cinco minutos, ela precisa ser capaz de achar na internet alguns fornecedores de um determinado tipo, entrar em cada site, dar uma olhada rápida no trabalho e tomar uma decisão. Devo ou não entrar em contato?
Infelizmente, no que diz respeito a sites, a situação das noivas é frustrante. Elas têm muita dificuldade de achar os fornecedores, porque muitos têm sites mal posicionados nas buscas. Aliás, outro ponto em que pecam feio. Fazem o site com um milhão de firulas, músicas, animações, muito oba-oba e pouco conteúdo. Mas, esquecem de prepará-los para serem encontrados facilmente das buscas. A maioria usa Flash, o que torna mais fácil colocar efeitos visuais, músicas e animações. Porém, em se tratando das buscas, o efeito frequentemente é ruim, visto que os mecanismos de busca, como o Google, até conseguem enxergar um site em Flash, mas raramente os colocam em boa posição nas buscas. E no fim das contas, do que adianta ter um site tão espalhafatoso se ninguém consegue achá-lo?
E não acaba aí. Quando a noiva consegue encontrar um site de um fornecedor do tipo que precisa, ainda tem que passar pela penúria de uma experiência de uso miserável. O primeiro sinal é o famigerado “carregando…” E fica ela lá esperando alguns minutos. Quando finalmente, carrega, lá está uma daquelas introduções chatas que ninguém suporta. E corre para procurar o botão de pular a introdução. E aí vai mais tempo carregando. Quando o site finalmente está carregado, a navegação é complicada, as fotos são minúsculas, a música precisa ser desativada (afinal, estamos em um escritório) e o formulário de contato, quando existe, tem um campo de mensagem onde só dá para escrever três palavras. Muitas vezes, nem se consegue descobrir em que cidade o fornecedor atua. É mole?
Que fique claro que Carla não tem nada contra o Flash em si. Pelo contrário. Há aplicações fantásticas para o Flash, como jogos, aplicativos multimídia, componentes de vídeo em sites, entre outras. Para ela, o problema é quando usam o Flash para fazer sites inteiros, sobretudo de casamento. E ainda empregam nesses sites coisas completamente estapafúrdias, que não colaboram em nada para aliviar seu sofrimento de noiva. Aliás, até atrapalham, causando transtornos com os chefes.
Falando em chefes, mal sabe ela o que lhe espera. Essas buscas por fornecedores durante o trabalho ainda vão dar pano para manga.
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Esse é mais um capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.
O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.
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By Vinícius Teles. Disponibilizado como Creative Commons Atribuição 2.5.
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