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Foto de Tom Woodward (CC)
Dona Neiva precisou ser acudida por Guga, que rapidamente a fez sentar-se em uma cadeira. O choro, que já corria frouxo desde o início da cerimônia, transformou-se em córrego e ganhou a companhia de irrefreáveis soluços. Ver Joana no palco, recebendo o canudo com o diploma de Bióloga foi a gota d’água para Dona Neiva. Daí por diante, chegaram a ficar preocupados que, de tanta emoção, ela viesse a passar mal. Até porque, as lembranças do passado estavam bem vivas.
Nesse último sábado, Joana não teve casamento para fotografar. Ao invés disso, estava ela própria sendo fotografada por Samuca, em sua formatura. Que ironia!
Seu Zé, pai de Joana, até que tentou se controlar e disfarçar. Sua relação com Joana ia mal desde que ela tinha começado a fotografar profissionalmente. Mas, naquela noite, tiveram uma trégua. Não só porque era a formatura dela, mas também porque aquilo representava o que seu Zé sempre quis. Que se formasse em uma boa universidade. Embora preferisse que ela tivesse uma bela carreira, fosse ela acadêmica ou em uma grande instituição pública. Ele próprio nunca tinha se formado. Não chegou sequer a concluir o ensino médio. Passou a vida toda trabalhando na prefeitura, onde ganhou o apelido de Zé da Goiabada, de tanto que apreciava o doce da goiaba.
Achava que os filhos teriam um futuro melhor se pudessem ir para a faculdade. Ele e Dona Neiva nunca tiveram vida fácil e sempre se esforçaram para dar a melhor educação possível para as crianças. Sempre foram rigorosos. Se por um lado Seu Zé não podia ajudar muito com os deveres da escola, visto que ele próprio não era muito letrado, por outro fazia os filhos andarem na linha com os estudos. Cobrava resultados e se ofendia profundamente se alguém aparecesse em casa com nota vermelha.
Guga, sendo o mais velho, foi o primeiro a se formar. Tinha feito Ciência da Computação e logo depois prestou concurso para a Petrobras, onde trabalhava desde então. Para Seu Zé e Dona Neiva, ver o filho formado, trabalhando na Petrobras, era uma felicidade só. Mesmo em seus sonhos mais ousados, nunca imaginaram ter um filho que chegasse tão longe. Agora ele trabalhava em Macaé e voltava para casa nos fins-de-semana.
A felicidade da família foi igualmente grande quando Joana passou no vestibular da UENF e começou a estudar Biologia. Tudo bem que, ao contrário do irmão, que sempre foi apaixonado por computadores e sabia bem que a computação seria sua carreira, Joana teve muita dúvida na época do vestibular. Mas, por fim, escolheu um curso que, durante todo o tempo da faculdade, lhe pareceu ser mesmo o mais correto. A não ser no último ano.
Quanto mais se envolvia com a fotografia, menos se empolgava com o curso. Depois de fazer o casamento do Nando então, nem se fale. Arrastava-se para as aulas, não porque quisesse, mas porque sentia a obrigação de terminar a faculdade. Afinal, “só” faltavam seis meses, que para ela mais pareceram uma eternidade.
Joana estava radiante em sua formatura. Poucas vezes na vida esteve tão alegre. Embora achasse que fosse sentir saudades das amigas, professores e colegas de laboratório, estava feliz por poder, a partir de então, dedicar-se completamente a sua nova profissão. Mas, quem não gostou nem um pouco disso foi Seu Zé.
Os conflitos começaram pouco antes de Joana fechar seu segundo casamento. Seu Zé até entendeu que ela fotografasse o casamento de Nando. Afinal, eram amigos de longa data. Mas, aquele segundo casamento era diferente. Se ele entendeu bem, Joana iria cobrar por ele. É como se quisesse fazer da fotografia um negócio.
Se isso fosse verdade, ele iria acabar com aquela história. Afinal, Joana estava sendo preparada para ter uma carreira de Bióloga e ponto final. Ele sempre quis que cada um dos filhos tivesse algum tipo de emprego público. Era essencial que trabalhassem em algo seguro, com estabilidade, que fosse para a vida toda e pudesse render uma aposentadoria confortável.
No caso de Guga, isso já estava equacionado. No de Joana, ainda estava por resolver, mas tudo já parecia encaminhado. Ela iria se formar em Biologia e se tornaria uma pesquisadora. No processo, é claro que faria um concurso. E como era muito inteligente, certamente passaria rápido.
Tudo isso já estava bem planejado na cabeça de seu Zé e ele não admitia que as coisas tomassem outros rumos. Até porque, os filhos precisam ser obedientes, pensava ele. Se os pais investem na educação deles a vida inteira e colocam em uma direção, é porque sabem melhor que eles como prepará-los para a vida. São mais experientes, portanto, compreendem os problemas que virão pela frente. Daí que já querem deixar os filhos com a vida encaminhada. Dessa forma, quando casarem e saírem de casa, não terão dificuldades. Mesmo estando longe da proteção dos pais. Assim pensava Seu Zé.
A primeira grande discussão se deu quando Joana, inocentemente, anunciou para todos durante um almoço de domingo, que faria um segundo casamento e cobraria por ele. Hum, aquilo não prestou.
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Esse é mais um capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.
O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.
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By Vinícius Teles. Disponibilizado como Creative Commons Atribuição 2.5.
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