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Quem está disposto a fazer o dever de casa?

Quem está disposto a fazer o dever de casa?

Foto de Patricia Figueira.

Ísis é cerimonialista. Outro dia soltou essa no Facebook:

“Está cada vez mais difícil ser cerimonialista. É tanta gente entrando no mercado, sem noção, totalmente amadora e cobrando valores completamente fora da realidade! Desse jeito, vai todo mundo falir.”

O mais preocupante nessa história é que Ísis não é uma cerimonialista qualquer. Muito pelo contrário.

Ísis: a melhor cerimonialista

Há vinte anos Ísis era bancária. Não era exatamente um trabalho de que gostava, mas era o que tinha. As coisas mudaram quando uma amiga do banco começou a preparar uma festa para o filho.

Ela contratou um cerimonial, mas pelo visto foi um desses bem amadores. Na semana do aniversário, ficou claro que não ia dar conta. Vendo a amiga desesperada, Ísis se ofereceu para ajudar. Para sua própria surpresa, adorou o trabalho e praticamente salvou a festa. De fato, deu tudo tão certo que as pessoas achavam que era ela a cerimonialista.

O resultado foi previsível. Outras mamães começaram a pedir a ajuda de Ísis. No início, ela dava uma força praticamente de graça, porque não se achava boa nisso. Fora que ajudar nas festas lhe dava mais prazer do que o trabalho no banco. Então, não achava que devia receber por isso.

Poucos meses depois já eram tantas festas que ela começou a cobrar, até mesmo como uma forma de tentar diminuir um pouco a procura. Mas, não adiantou, os pedidos de organização de festa continuaram chegando cada vez mais até que tomou coragem e se demitiu do banco.

O resto é história. Desde então Ísis praticamente não respira. Durante os últimos vinte anos esteve organizando festas em quase todos os fins-de-semana do ano. Raros são aqueles em que sua agenda está vazia. 

Ela é reconhecida por todos como uma cerimonialista eficiente, que sempre entrega aquilo que promete. As falhas são raras. Por outro lado, como está sempre trabalhando muito, nunca teve tempo de se dedicar a outros aspectos do negócio. O foco sempre foi a execução das festas. O resto ia levando como podia.

Isso funcionou bem durante os primeiros quinze anos. Mas, a verdade é que de cinco anos para cá as coisas começaram a mudar e Ísis percebeu que já não era mais tão fácil fechar negócio. Fora que a própria demanda tinha caído notavelmente. 

Por mais que tentasse, não conseguia achar outra explicação, a não ser a concorrência cada vez maior dessas meninas que estavam chegando agora, sem nenhum conhecimento do assunto, totalmente amadoras e sem a menor capacidade de organizar e conduzir um evento.

Pilar: a que faz o dever de casa

Pilar fez vestibular pela primeira vez aos dezessete anos, em uma época em que ainda não havia alternativas como o Enem. Não passou. Mas, não pense que faltou estudo. Bem ao contrário.

Pilar sempre foi uma aluna responsável, excessivamente responsável e dedicada, diriam alguns. Era o tipo que chegava em casa todos os dias e passava os cadernos a limpo com suas canetas coloridas. Cada caderno parecia uma obra de arte e o dever de casa sempre tinha de estar pronto antes que ela partisse para outra atividade.

Véspera de prova era impossível tirá-la de casa. Enquanto algumas amigas estudavam um pouquinho e iam para a balada, Pilar se dedicava de corpo e alma aos estudos. E até por isso tinha sempre notas excelentes. Mas, isso não foi suficiente para que passasse no vestibular.

Tentou passar para o curso de arquitetura. Mas, falhou três vezes. Foram três anos  se esforçando para passar na universidade pública, já que a particular a família não podia pagar. Em todos os casos foi derrotada por si mesma, pelo nervosismo. Quando chegava em casa, sabia fazer a prova praticamente toda. Mas, na hora da prova, se apavorava e colocava tudo a perder.

Finalmente desistiu e foi procurar um trabalho. Uma colega lhe disse que havia uma casa de festas contratando assistentes de cerimonial. Ela mal sabia do que se tratava, mas foi conferir. E assim esbarrou nessa profissão, quase por acaso. 

O que mais gostou desse trabalho é que via a transformação do lugar. A cada festa havia uma nova decoração e o processo de transformar o lugar a encantava. Provavelmente pela mesma razão que a arquitetura a seduzia.

Para encurtar a história, em certo momento, depois de juntar algum dinheiro e conhecimento de eventos, resolveu se aventurar e montar seu próprio cerimonial. Mas, só fez isso depois de, como sempre, estudar muito o assunto e, sobretudo, aprender tudo o que podia sobre empreendimentos de sucesso.  Tanto que a lição mais importante que guardou é a que melhor aplicou em seu próprio cerimonial e que logo ficará bem clara.

No início, Pilar não tinha dinheiro para montar um escritório. Então, seguiu por outro caminho. Na visão dela, imagem é fundamental e passar uma imagem de profissionalismo deveria ser sua primeiríssima prioridade. Então, com as poucas economias que tinha, tratou de contratar uma boa designer. Não a mais cara do pedaço, mas alguém que era claramente profissional, que tinha estudado muito, que sabia o que estava fazendo e que fazia seu trabalho bem feito. 

Criou uma identidade visual elegante para seu cerimonial, com um logotipo bonito que reluzia nos cartões de visita, pastas, blocos de nota e outros elementos de papelaria. Em seguida, tratou de criar um site profissional, com profissionais, pois sabia que sua maior plataforma de vendas seria a internet. É nela que as pessoas iriam ter acesso ao seu trabalho pela primeira vez, é lá que as pessoas teriam a primeira impressão sobre ela, e é através da internet que a maioria das pessoas fatalmente faria o primeiro contato.

Escolheu um arranjo em que não tivesse que pagar para fazer o site, pagava apenas o equivalente a um cafezinho por dia para para mantê-lo, de modo que tivesse acesso a todo o suporte necessário se quisesse mudar algo ou se algum problema acontecesse. A última coisa que queria na vida era que seu site ficasse fora do ar. Isso para ela seria o fim e até por isso queria que tivesse sempre alguém cuidando dele.

Por fim, comprou um pequeno espaço em uma feira de noivas e lá começou a fazer seus primeiros contatos e distribuir seus primeiros cartões de visita. Não tardou  para que aparecessem os primeiros contatos. 

Antes da primeira reunião, com aquela que viria a ser sua primeiríssima cliente, tomou uma providência certeira: um banho de loja. Nada caro, porque a essa altura dinheiro já praticamente não tinha. Mas, o suficiente para se mostrar bem apresentável, com um ar de profissionalismo que, querendo ou não, só uma bela indumentária pode conferir a uma pessoa. Para arrematar, comprou uma caixa de finos chocolates e foi encontrar-se com a cliente, que, surpresa, recebeu de suas mãos a inesperada iguaria.

De lá pra cá muita coisa mudou. Pilar agora atende em um lindo escritório. Tão lindo, de fato, que a maioria dos clientes já decide contratá-la de forma inconsciente, antes de sequer trocar uma palavra com Pilar. Só de chegar ao escritório o negócio já é fechado.

É tão curioso que vale a pena um pouco mais de detalhes. Seu escritório fica na beira da calçada de uma rua bem movimentada pela turminha descolada e bem de vida. É um ponto ótimo onde antes havia uma loja. Pilar reformou tudo para que a frente fosse completamente de vidro. Dentro colocou uma mesa de jantar linda, finamente decorada para uma cerimônia de casamento. 

Há vários espaços, representando diferentes ambientes que comumente podem ser encontrados em um casamento. Cada um deles impecavelmente decorado. E, por fim, existe a sua mesa, arrumadíssima, diante da qual se sentam os noivos para discutir os detalhes do casamento. 

Como o lugar é todo de vidro e extremamente bem iluminado, quem passa de fora fica encantado e diria que até quem não quer se casar tem vontade de entrar e ser atendido naquele lugar maravilhoso. De noite o espetáculo é ainda mais impressionante, já que a pouca luz do lado de fora torna o interior ainda mais vivo.

Pilar continua igualmente forte na internet. O que mudou desde então foi o número de eventos em seu site, que só cresceu ao longo do tempo. Um mais lindo que o outro. Ela continua encantando as pessoas na internet e quando essas a visitam, ficam igualmente encantadas com o escritório, com o atendimento primoroso e o ar de profissionalismo que se respira por todos os cantos. Cada novo contato com um aspecto do negócio reforça a confiança do cliente, de que está fazendo a escolha certa.

Mas, a história não para por aí. Pilar formou uma excelente equipe. Seu talento para contratar gente boa e mantê-las no negócio é uma de suas principais qualidades. Tanto que, na prática, são essas pessoas que realmente conduzem os eventos e fazem deles um sucesso. Pilar apenas monitora tudo de perto, já que atua muito mais na venda e nas discussões preliminares com os noivos.

Pilar não é, ela própria, a melhor cerimonialista da cidade. Mas, é a que tem o melhor cerimonial da cidade. É a que tem o melhor negócio de cerimonial e provê o melhor serviço. Por que? Porque desde cedo Pilar fez o dever de casa e entendeu o conceito mais importante do mundo dos negócios.

O que importa não é ser a melhor cerimonialista, nem ter o escritório mais bonito, nem ter o melhor marketing, nem ter a melhor identidade visual. O que importa não é nada disso separadamente. O que realmente importa é ter tudo isso muito bem executado em conjunto. O conjunto é o que importa. 

Cada um desses aspectos precisa estar presente no negócio e ser bem feito, muito bem feito. O trabalho de cerimonial precisa ser ótimo, a identidade visual tem que ser linda, o site tem que ser profissional e impecável, o escritório tem que ser o melhor possível, a roupa que veste quando encontra um cliente precisa ser apropriada, o cafezinho servido tem que ser bom, o relacionamento com uma extensa rede de fornecedores tem que ser primoroso, a festa tem que ser bem conduzida e tudo isso precisa acontecer sempre, de forma consistente. Isso é o que faz de um negócio um grande negócio. É ter um conjunto coerente, onde cada parte é muitíssimo bem executada de forma consistente.

É no treino que se ganha o jogo

Enquanto Ísis se concentrou em ser uma excelente cerimonialista, Pilar, compreendeu corretamente que isso não basta. Isso é apenas um aspecto do negócio. Os outros precisam ser igualmente bem tratados. Mas, não é fácil. Porque é preciso fazer o dever de casa, não só naquilo em que se é bom (no caso de Ísis, organizar festas), mas também naquilo em que não se é bom e que não se domina em um primeiro momento.

É dificílimo fazer esse dever de casa porque ele toma tempo, envolve assuntos que estão fora da zona de conforto e, sinceramente, muitas dessas coisas são chatas mesmo. Ninguém dá bola para elas isoladamente. 

É como ficar treinando um tempão para um jogo. Os fãs, a torcida, os gritos de apoio só estarão presentes na hora do jogo. Mas, é no treino que se vence o jogo. Porque o melhor preparado é o que inevitavelmente vencerá o jogo. O desafio é passar pelo treino, com foco e determinação, ainda que não tenha ninguém vendo, nem torcendo. 

Como mencionei antes, é plantando que se colhe. Pois foi fazendo o dever de casa que Pilar superou Ísis. E é por isso que hoje, o conjunto criado por Pilar transmite uma história irrefutável: esse é um cerimonial profissional, realmente confiável. Por que contratar outro?

Ah, sobre a concorrência? Bem, Pilar nunca pareceu dar muita bola, nem ser particularmente afetada por ela. Ao que parece, boa parcela dos concorrentes quer colher os mesmos frutos que ela, mas não está disposta a fazer o mesmo dever de casa. Então, obviamente, não chega nem perto de alcençá-la.

E você? Tem disposição para fazer o dever de casa? Que tal começar com um site profissional?

Autor: Vinícius Teles.

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