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09/12/2009, 10:22

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Samuca começava seu email com algumas perguntas: Joana, quando você vai ao supermercado, você sai sem pagar as compras? O supermercado te dá de presente os produtos de que você precisa para seu dia a dia? E na farmácia, você recebe os produtos de graça? Você come de graça no restaurante? Você usa luz, telefone, água, sem pagar? Se você paga por tudo isso, Joana, por que você acha que as pessoas não deveriam pagar por suas fotos? Você não gosta de receber pelo trabalho que faz?

Pensando bem, essas são perguntas bastante coerentes. Afinal, se todos recebem pelo trabalho que realizam, o fotógrafo também deveria receber pelas fotos que faz. Nada mais justo.

Samuca continuava o email afirmando que ela estava “canibalizando” a fotografia de casamento. Ou seja, segundo ele, Joana estava adotando práticas que iriam desvalorizar o trabalho dos fotógrafos, o que prejudicava ele, os demais fotógrafos e ela própria. Considerava que seu movimento na direção do Creative Commons era um erro grave. Na sua visão, Joana queria crescer rápido demais, e para isso estava adotando atalhos e usando práticas predatórias.

Essa era a única explicação aceitável, na visão de Samuca, para se compreender a razão pela qual um fotógrafo adotaria o Creative Commons. Para ele, era como se o fotógrafo estivesse dando seu trabalho de mão beijada para os outros, sem nenhum critério, a troco não se sabe bem de quê.

Samuca continuava sua missiva eletrônica informando que vinha acompanhando o trabalho de Joana através da internet. Considerava as fotos imaturas e de qualidade sofrível. Mas também, o que se poderia esperar de uma novata, não é mesmo?

Seguia adiante afirmando que faltava a Joana alguma originalidade. Pois, identificava que as fotos que ela vinha fazendo “claramente” procuravam imitar seu trabalho. De onde lançou a pergunta: será que custa tanto buscar um caminho próprio? Será, Joana, que sua única alternativa é “me copiar”?

É preciso dizer, a bem da verdade, que essa parte do email de Samuca foi lida mais de uma dezena de vezes, tamanha a incredulidade de Joana diante do que estava escrito. Afinal, como poderia ela estar copiando-o, se nem sequer era possível ver a maior parte de seu trabalho na internet? Como poderia ela estar copiando-o, se tudo era fechado com login e senha?

De fato, uma questão e tanta a ser resolvida. Mas, não a única. O próximo tópico referia-se ao preço que Joana vinha cobrando, que ele considerava “preocupante”. Dizia que Joana estava cobrando valores demasiadamente baixos para ganhar mercado rapidamente. Mas, acreditava que aquilo eventualmente iria voltar-se contra ela própria. Daí que lançou a sarcástica pergunta: Joana, já que você me copia nas fotos, não seria melhor aproveitar e copiar também os valores?

Samuca ponderava que as práticas comerciais que Joana começava a esboçar, cobrando pouco por seu trabalho, e ainda “dando tudo de graça na internet”, prejudicavam a concorrência, mas acabariam por prejudicar a própria Joana futuramente. Ou seja, se ela levasse o mercado todo a praticar preços menores, todos perderiam. Nesse aspecto, Samuca até que teria alguma razão, se a justificativa pelo preço menor adotado por Joana fosse realmente uma vontade de “passar por cima da concorrência”, o que estava longe de ser o caso, como logo saberemos.

Para concluir, Samuca afirmava que, na tentativa de ser “malandra”, Joana estava era sendo muito ingênua. Será que ela e o resto dos fotógrafos não conseguiam perceber que o Creative Commons é um grande “engodo”? Seria assim tão difícil se dar conta da “grande verdade”?

Para Samuca, além de desvalorizar os fotógrafos, o Creative Commons servia aos interesses daqueles que queriam utilizar o trabalho alheio sem pagar por ele. Acreditava que revistas, jornais, designers e muitos outros se beneficiavam do Creative Commons, porque assim podiam usar as fotos de fotógrafos “tapados”, livremente, de graça e sem que o fotógrafo jamais recebesse um centavo por seu trabalho. Ora, será tão difícil perceber que isso é o cúmulo da desvalorização de um profissional? Como é possível que tantos fotógrafos caiam nessa “armadilha”?

Joana ficou atônita e duvidando dos próprios olhos. Não conseguia acreditar que alguém, sobretudo o Samuca, cujo trabalho ela conhecia há anos, tivesse escrito tudo aquilo e de forma tão agressiva. Os pontos levantados sobre o Creative Commons eram importantes, sem dúvida. Mas a forma como escreveu o email não podia ter sido pior.

É como se ele quisesse esmagá-la e retirá-la do caminho a todo custo. O tom do email, que podia ser captado em inúmeras passagens que não foram transcritas aqui, revelavam o ódio que Samuca vinha nutrindo por Joana.

O pior é que, até então, Joana gostava de Samuca e admirava seu trabalho. Portanto, foi com enorme surpresa que recebeu aquela mensagem. Não tanto pelas questões levantadas, que levariam Joana a refletir bastante, mas sobretudo por essa maneira de se dirigir a ela, que por transbordar de raiva, chocava em um primeiro momento, mas fazia pensar se não havia algo mais nessa história. Algo que não tinha muito a ver com a fotografia em si, mas talvez com um ego ferido.

De fato, para nós que somos meros observadores, é desnecessário dizer que o problema de Samuca era outro. O que sentia em relação a Joana era uma dor-de-cotovelo que cresceu a um tal ponto de não poder mais ser cultivada, em isolamento, no campo fértil de sua alma. A ascensão de Joana começou a lhe incomodar tanto, que quando viu a questão do Creative Commons, chegou a agradecer em seu íntimo por Joana ter lhe dado a deixa para uma ofensiva.

O ciúme de Samuca ao ver o sucesso de uma menina, cuja idade não chegava sequer ao tempo que ele tinha de profissão, estava corroendo-o sem que ele próprio percebesse o quanto. Pelo menos nisso ele não deveria se sentir sozinho. Afinal, a ciumeira parece brotar com facilidade em diversas profissões, sobretudo naquelas com teor mais artístico, como a fotografia. Portanto, Samuca estava em boa companhia. Tantos são os portadores de dor-de-cotovelo que sua mensagem, que havia sido devidamente copiada para uma lista de discussão, não chegava a causar surpresa.

Aliás, enviar a mensagem também para uma lista de discussão badalada foi a cereja no topo do bolo. Afinal, se era para achincalhar a pobre Joana, que houvesse testemunhas. E que testemunhas! Pois não teve um único na lista que se levantasse para defendê-la. Ao contrário. Inúmeros fotógrafos “apedrejaram” a menina, cuja reputação, antes mesmo que pudesse ser construída, acabava de ser sepultada.

Samuca divertia-se ao ver as reações na lista de discussão. As mensagens não paravam de chegar e a revolta popular revelava o número assustador de colegas que, como Samuca, sentiam-se ameaçados pelas novidades e pela entrada de novos profissionais na área. Naquele momento, Joana cumpria o não muito honroso papel de “saco-de-pancadas” para aliviar as ansiedades da moçada.

Os efeitos de tudo isso para Joana foram profundos. Mas, antes que venhamos a sabê-lo, é necessário analisar com calma os pontos levantados por Samuca sobre o Creative Commons. Afinal, quem vai querer ser o ingênuo que entrega a presa para o lobo, de mão beijada?

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Esse é mais um capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.

O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Os capítulos são sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.

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06/11/2009, 11:31

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Não se passaram muitos meses desde as acaloradas discussões que foram iniciadas por Samuca em uma frequentada lista de discussão, onde ele acusava outro fotógrafo de plagiar uma foto de sua autoria. Na discussão, quase todos os fotógrafos se colocaram ao lado de Samuca. Os que não o fizeram, permaneceram em silêncio. Não se manisfestaram em defesa do acusado que, por acaso, era um fotógrafo que já tinha algum tempo de estrada, mas bem menos que Samuca.

Para provar o suposto “plágio”, Samuca enviou para a lista uma foto que havia sido tirada pelo fotógrafo acusado e outra, de sua autoria, tirada mais de um ano antes. A foto supostamente copiada era uma das poucas que Samuca expunha, abertamente, em seu site. As demais só eram acessíveis com a utilização de login e senha, justamente na tentativa de “proteger” seu trabalho do “plágio”.

De fato, uma simples inspeção visual permitiria-nos ver que a foto tirada pelo acusado era extremamente semelhante àquela tirada por Samuca. E, dado que a do último era mais antiga, estavam sobre a mesa todos os ingredientes necessários para cozinhar uma acalorada discussão, que seguiu-se por vários dias. As tentativas de defesa do acusado foram patéticas. Para sua mais profunda infelicidade, não lembrou-se de recorrer ao básico.

A foto em questão havia sido tirada em um casamento. Não era a foto mais usual do mundo, é verdade, mas estava longe de ser inovadora. Para verificar isso, bastava fazer uma busca por fotos de casamento no Google Images ou no próprio Flickr. Ao cabo de poucos minutos, com alguma paciência, seria possível encontrar várias fotos semelhantes àquela que Samuca dizia ter criado.

Aliás, é possível dizer que alguém “criou” uma foto? Ou seja, até onde se pode afirmar que uma pessoa fez uma determinada foto pela primeira vez? Como provar isso? Poderia Samuca provar que jamais houve no mundo alguém que tivesse feito uma foto como aquela que ele alegava ser de sua autoria?

É certo que há casos, raros, em que a foto é tão peculiar, que pode realmente nunca ter havido outra antes que se assemelhe a ela. Um exemplo talvez seja o do fotógrafo Mark Lloyd, que fotografou o skipper Alex Thomson “surfando” na quilha do seu Open 60 Hugo Boss, conforme mostrado nessa história. Mas, na área de casamentos, quantas fotos podem realmente ser consideradas únicas? Jamais feitas no passado?

No caso da discussão de Samuca com o outro fotógrafo, ele deu sorte. Não passou vergonha devido ao despreparo do acusado e da covardia daqueles que sabiam que ele estava errado, mas não se manifestaram. Bastava que um deles tivesse buscado algumas fotos semelhantes na internet e a discussão estava encerrada. Ou pior, poder-se-ia ter criado uma nova discussão, na qual o acusado seria o próprio Samuca. Afinal, como garantir que ele próprio não baseou sua foto na de outro colega, que tivesse visto na internet?

Quando fez a acusação, Samuca não pensou nessa possibilidade, naturalmente. Tampouco estava ele mentindo a respeito da autoria da foto. Ele realmente nunca tinha visto uma foto como a que fez em nenhum outro site. Teve a ideia no momento e fez a foto. Mas, como acontece tantas outras vezes, uma mesma ideia não só pode como frequentemente vem à mente de inúmeras pessoas diferentes, em lugares e momentos diferentes. Foi justamente o que aconteceu no caso de Samuca. Tivesse ele pesquisado um pouco mais, veria que, muito antes dele, outros fotógrafos já haviam feito a mesma foto, nas mais diversas partes do planeta.

Seja como for, o comportamento de Samuca nessa questão reflete a forma como enxerga o mundo. Um local, segundo seu pensamento, regido pela escassez, onde o triunfo de um só pode se dar a partir do fracasso de outro. Nesse episódio, Samuca faz uma tentativa inútil e patética de criar uma espécie de reserva de mercado para aquela sua foto. Como quem diz, essa foto é minha. Ela é fantástica, mas só eu posso fazer, porque eu tive a ideia, portanto só assisti a mim o direito de usá-la.

O que nos leva a analisar a própria questão da criatividade. Segundo Einstein, “o segredo da criatividade é saber como esconder as fontes.” Em outras palavras, vivemos em um mundo onde muito já foi feito. É difícil criar algo completamente novo. Na maior parte do tempo, o que chamamos de criatividade é baseado no trabalho de muitas outras pessoas. A criação não é uma cópia do trabalho de alguém. Mas, frequentemente utiliza ideias que têm por base outros trabalhos. Ideias essas que foram combinadas de uma forma única, possivelmente com novos ingredientes, até que se possa afirmar que algo novo foi criado.

Isso sempre foi verdade, mas hoje, é ainda mais. A tecnologia, sobretudo a internet, ajuda as ideias a fluírem com maior agilidade. O que não significa que seja ela uma ferramenta para “plagiar” o trabalho de outros. Mas, é certamente uma ferramenta que permite conhecer muitos e muitos trabalhos, com uma facilidade e uma rapidez jamais vistas antes na humanidade. Daí que, para alguns, a internet representa um enorme avanço para aprimorar a capacidade criativa das pessoas, enquanto para outros, representa um mar de plagiadores.

Essa última é justamente a visão de Samuca. Razão pela qual ele protege suas fotos em seu site, impedindo com isso que qualquer outro fotógrafo venha a conhecer seu trabalho.

Quando encomendou a criação de seu site, ele foi categórico. Queria que as fotos ficassem protegidas contra cópia, embora ele, com todo seu conhecimento, devesse saber que é impossível proteger uma foto contra cópia na internet. Quem quiser copiar, conseguirá fazê-lo, nem que seja através de uma simples captura de tela. E, por mais que tentem apregoar que existem mecanismos para impedir uma captura de tela, todos são fáceis de burlar e, justamente por isso, são sempre burlados.

Outro ponto essencial para ele é que o site tivesse uma área com login e senha, que pudesse ser acessada apenas por pessoas autorizadas. No caso, o casal que foi fotografado. Sua justificativa, para quem o perguntasse, era a preservação da privacidade do casal. Mas, ele próprio sabia que a razão era bem outra. Não queria que seus concorrentes vissem suas fotos. Senão, “com certeza iriam copiá-las.”

Para os visitantes do site que não tivessem conhecimento de nenhum login e senha, ele mostraria um pequeno portfólio de fotos, que raramente mudava. Essas fotos eram pequenas, de propósito, para que ninguém pudesse copiá-las e usá-las indevidamente. Além disso, em um ponto proeminente do site, apareceria escrito:

Lei dos Direitos Autorais - Todas as fotografias incluídas neste site estão sobre a proteção da LEI DO DIREITO AUTORAL Nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Portanto, é proibida qualquer reprodução ou divulgação das mesmas, sem prévia aprovação do fotógrafo.

Por tudo isso, observa-se que sua maior preocupação, ao fazer o site, foram os outros fotógrafos e não seu cliente final. O que faz total sentido, considerando-se que Samuca vê o mundo pela ótica da escassez. Mas, para a infelicidade dele, o mundo em que está inserido já não é mais o da escassez. Mas, claro que isso não o impediu de enviar um email desaforado para Joana.

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03/11/2009, 13:35

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Joana se empolgou com o fato de ter adotado o Creative Commons para suas fotos. Achava que sua iniciativa seria bem recebida, mas logo descobriu que estava bem enganada. Assim que colocou as fotos de seu terceiro casamento em sua conta do Flickr, recebeu um email desaforado. O que para ela foi uma dupla surpresa.

Ela sabia que muitos fotógrafos não gostavam do Creative Commons, mas achava que a razão era a falta de estudo deles sobre o assunto. Sendo assim, imaginava que, se eles se dessem ao trabalho de conhecer mais sobre o tema, também se empolgariam. Por isso, inocentemente, partiu do princípio que outros fotógrafos, que viessem a olhar seu trabalho, seriam levados ao site do Creative Commons, no mínimo por curiosidade, e aprenderiam sobre ele. Não poderia estar mais enganada.

A primeira crítica que recebeu, em um email longo e enfurecido, veio de ninguém menos que Samuca. Daí a razão pela qual ficou duplamente surpresa. Na verdade, nem imaginava que Samuca a conhecesse, muito menos que estivesse acompanhando seu trabalho tão de perto. Afinal, só isso poderia explicar o fato de ele ter enviado o email poucos minutos após Joana publicar as fotos de seu terceiro casamento, as quais, pela primeira vez, tinham a marca d’água do Creative Commons.

Nesse email, Samuca falava do Creative Commons, sim, mas não se limitava a isso. Aproveitava para fazer inúmeras críticas a Joana, que, bem analisadas, refletiam uma profunda preocupação com os avanços dela no mundo da fotografia. Sendo que, do ponto de vista de Samuca, não era nada disso. Ele estava apenas buscando preservar o “bom funcionamento” da profissão. Além disso, Joana era muito nova. Claramente precisava aprender algumas lições.

Como bem sabemos, Samuca já anda por essa área da fotografia há muito tempo. Começou em 1979. Portanto, carrega já uns bons trinta anos de profissão. Mais tempo do que Joana tem de vida.

Não são poucas as pessoas que, chegando à idade de Samuca, perdem a capacidade de atualizar-se. Mas, felizmente, esse não é o caso dele, nem de longe. Ele não apenas é um amante da fotografia, como também da tecnologia. É o tipo de pessoa que está sempre ligada nos últimos lançamentos, seja de equipamentos fotográficos, seja de computadores, softwares e outros brinquedinhos.

Além disso, tem a irritante mania de estudar cada lançamento até o último detalhe. É daqueles que podem discutir durante dias e dias sobre as diferenças entre Canon e Nikon, entre Macs e PCs e assim por diante. Com tanto conhecimento, não é para menos que tenha sido um dos primeiros usuários de Mac de sua cidade, quando ainda havia poucos equipamentos desse tipo no Brasil, lá pelos idos da década de 80. Antes até que Joana fosse nascida.

No que diz respeito ao Creative Commons, se Joana acha que ela descobriu alguma novidade, está muito enganada. Antes que ela pensasse em estudar o assunto, Samuca já o conhecia há anos. Ele acompanha o Creative Commons de perto, quase que desde o seu lançamento. Na época, nem sequer havia textos sobre isso em português. Mas, isso para ele nunca foi um problema. Samuca tem ótima fluência em inglês, ao contrário de muitas pessoas de sua geração.

Finalmente, ao contrário de Joana, que por essa época tinha apenas uma simples conta no Flickr, onde colocava suas fotos, Samuca tem um site bem consolidado há anos. O que mostra que, ao contrário do que possa pensar um leitor desavisado, Samuca não é um fotógrafo ultrapassado. Pelo contrário, conhece muito mais e está bem mais antenado do que a grande maioria de seus colegas de profissão.

O problema que lhe aflige é outro. Ele consegue acompanhar sem dificuldades o avanço da tecnologia. O que não consegue é aceitar o avanço do pensamento e as mudanças sociais que vêm com o avanço tecnológico. Em outras palavras, sua proficiência tecnológica não é acompanhada de uma igual versatilidade no campo da mentalidade. Essa, continua quase inalterada. É praticamente a mesma que possuía quando iniciou sua carreira de fotógrafo. E isso explica, em grande parte, seus atos para com Joana e outros fotógrafos no passado. A começar por aquele último episódio que tanto alvoroço gerou em uma frequentada lista de fotografia.

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28/10/2009, 14:29

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Depois de ler as informações no site do Creative Commons, assistir ao vídeo, e analisar os tipos de licença disponíveis, Joana logo percebeu que disponibilizar o trabalho como Creative Commons seria o mais apropriado para seu caso. Não só isso, ela viu que estava diante de uma oportunidade de ouro e que precisava correr para usá-la, enquanto tanta gente ainda não tinha acordado para o assunto.

É preciso compreender como Joana chegou a essa conclusão. Para tanto, comecemos entendendo seu propósito. Resumindo, o que ela desejava é que situações como a que aconteceu com a estilista, que “roubou” suas fotos e colocou em um blog badalado, se repetissem muitas outras vezes. Joana percebeu que quanto mais suas fotos ficassem expostas, levando sempre sua marca d’água, melhor para os negócios. Portanto, não importa se a foto é vista no Flickr de Joana, ou no seu Orkut, ou site, ou qualquer outro meio pertencente à própria Joana. O que interessa é simplesmente que as fotos sejam vistas pelo maior número possível de pessoas.

O problema é que Joana não queria mais que a publicação de suas fotos, sem pedido de permissão, fosse considerado um roubo. Se por um lado a estilista não se preocupou com essa questão, por outro, pessoas mais conscientes das leis de direito autoral poderiam se sentir tolhidas e não publicar as fotos de Joana, por saberem que aquilo configuraria um crime do ponto de vista do direito autoral.

Seria o caso, por exemplo, de revistas, ou sites de publicações famosas. As pessoas que trabalham em revistas costumam conhecer pelo menos o básico das leis de direito autoral. Então, Joana não gostaria de lhes “fechar as portas”. Ao contrário, queria que todos se sentissem muito à vontade para mostrar suas fotos, tanto quanto desejassem.

Infelizmente a legislação sobre direito autoral é bem restritiva. Se uma foto não contiver nenhum tipo de informação sobre licenciamento, ela é considera copyright de quem a tirou. Ou seja, só o próprio autor da foto pode exibi-la, distribuí-la, ou usá-la da forma que bem entender. Isso fica ainda mais explícito quando o fotógrafo usa o símbolo © em sua foto.

Quando uma foto é publicada assim, dizemos que todos os direitos são reservados para seu autor. Portanto, pegar a foto no site do fotógrafo e colocá-la em outro, como fez a estilista, não só é proibido, como é considerado uma ofensa grave perante a lei. Isso é bom, porque protege o autor de uma obra contra usos indevidos da mesma. Porém, como Joana mesmo já percebeu, há situações em que a lei mais atrapalha do que ajuda. Há momentos em que o excesso de proteção vira-se contra o autor, contribuindo para que seu trabalho seja bem menos conhecido do que poderia ser, se pudesse circular livremente.

Foi pensando nisso que o Creative Commons foi fundado, em 2001, por um grupo de peritos em leis de propriedade intelectual. Eles queriam criar uma forma para que autores pudessem licenciar suas obras mantendo alguns direitos, ao invés de todos. Daí surgiu o famoso “alguns direitos reservados”, ao invés de “todos os direitos reservados”.

Pelo que Joana entendeu, a coisa funcionava mais ou menos assim. Há vários tipos de licença Creative Commons. A mais básica de todas é a Creative Commons Atribuição. Ela permite que outras pessoas distribuam, remixem, adaptem ou criem obras derivadas, mesmo que para uso com fins comerciais, contanto que o autor receba o crédito pela criação original. Essa é a licença menos restritiva de todas as oferecidas, em termos de quais usos outras pessoas podem fazer de sua obra.

No caso da estilista, se Joana tivesse publicado suas fotos como Creative Commons Atribuição, não haveria nenhum problema de a estilista pegar as fotos e colocar em seu blog. Para isso, bastaria que, no blog, a estilista dissesse que a autora das fotos foi Joana. Entretanto, se nas próprias fotos já houvesse uma marca d’água informando que a foto é de autoria de Joana e licenciada como Creative Commons Atribuição, o problema já estaria resolvido. A estilista não precisaria nem citar o nome de Joana no blog, pois o mesmo já estaria embutido na própria foto. A marca d’água poderia ser, por exemplo, uma das três abaixo:

Possíveis marca d'água de Joana

Se Joana quisesse limitar o uso de suas fotos, de modo a não permitir o uso comercial delas, ela poderia usar a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial. Ela permite que outros remixem, adaptem e criem obras derivadas. Mas, não é permitido o uso com fins comerciais. De fato, é bem fácil compreender essa e as demais licenças Creative Commons.

Depois que leu tudo, Joana ficou feliz em saber que o Creative Commons resolveria seu problema. Mas, não demorou para perceber que a oportunidade que tinha em mãos ia muito além. Pois, há uma “janela de oportunidade” que ela logo identificou. E tem a ver com a postura tradicional de muitos fotógrafos, que temem prejuízos com usos indevidos de suas fotos e, portanto, muitas vezes nem se dão ao trabalho de tentar aprender sobre o Creative Commons.

Como muitos ainda pensam desse jeito, se Joana começasse sua carreira já adotando esse modelo inovador de licenciamento de fotos, ela já estaria dando um passo a frente, em relação à maioria de seus colegas de profissão. Enquanto muitos teriam pouca exposição de suas fotos, Joana poderia colher uma maior divulgação de seu trabalho justamente por dar permissão para isso.

Em outras palavras, enquanto muitos continuarão mantendo uma postura excessivamente protetora, que também protege clientes potenciais de conhecerem o trabalho, Joana faria todo o possível para que seu trabalho circulasse livremente na rede. É claro que, com o tempo, cada vez mais fotógrafos vão compreender a importância do Creative Commons e seguirão os passos de Joana. Mas, o fato inegável é que, neste momento, ela já estaria em vantagem e, como a mentalidade das pessoas evolui lentamente, ela poderia usufruir dessa vantagem por um bom tempo.

Joana acabou optando pelo uso da licença menos restritiva, a Creative Commons Atribuição. Mas, antes disso, estudou muito o assunto. Não só leu todo o site do Creative Commons, como também buscou e leu o site de colegas fotógrafos que manifestavam preocupação com o uso indevido das fotos. Colocou tudo na balança e concluiu o seguinte.

A fotografia digital e a internet facilitaram muito a circulação das fotos. Sendo assim, é fato inegável que, uma vez expostas na internet, as fotos não só podem, como provavelmente serão usadas, de tempos em tempos, sem a devida autorização do autor e, possivelmente, para fins que o autor não desejaria. Naturalmente, isso é prejudicial para o fotógrafo.

Por outro lado, não divulgar as fotos na internet, ou impedir que as fotos circulem livremente tende a ser ainda mais prejudicial. Pois inúmeros clientes potenciais deixam de ter conhecimento do trabalho do fotógrafo. Sendo assim, não há um caminho perfeito nessa história. Seja qual for a escolha, haverá possíveis prejuízos e recompensas.

O que Joana concluiu é que, em seu caso, considerando-se o tipo de fotografia que faria e a forma como venderia seu trabalho, os eventuais prejuízos que ela poderia ter em função de usos irregulares de suas fotos seriam infinitamente menores que as possíveis recompensas que colheria, em seus negócios, se a liberdade de circulação de suas fotos pudesse fazer seu trabalho se tornar cada vez mais conhecido. E foi assim que ela decidiu adotar a licença Creative Commons Atribuição.

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27/10/2009, 10:43

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Joana só foi descobrir o que estava acontecendo três dias depois de os inesperados pedidos de orçamento começarem a chegar. Uma das noivas que entraram em contato comentou que tinha visto um artigo no blog da estilista com fotos do vestido que havia sido feito para a noiva grávida, que Joana tinha fotografado. Foi assim que ela chegou até Joana.

Sendo Joana uma moça muito antenada, não só conhecia o blog da estilista, como ficou maravilhada ao saber que suas fotos haviam aparecido lá. Logo ficou claro por que tantas pessoas estavam lhe procurando naqueles dias.

Se por um lado ficou feliz em descobrir o que estava se passando, por outro ficou chateada por não ter percebido antes. É que estava em época de provas na faculdade e, por isso, a leitura dos feeds estava atrasada. Eis aí a razão pela qual ainda não tinha visto seu próprio trabalho no blog da estilista.

Aliás, acompanhar feeds dos blogs que lhe interessavam era uma espécie de religião para Joana, só abalada em poucos momentos, como nas épocas de prova. Através do Google Reader, acompanhava inúmeros blogs. E, graças aos feeds, ficava sabendo rapidamente de todas as atualizações. Ao longo do tempo, desenvolveu sua própria técnica para filtrar os artigos e ler apenas o que interessava mais.

Em diversas dessas leituras teve a oportunidade de perceber que havia, entre os fotógrafos, uma preocupação acentuada com a questão do direito autoral. De um modo geral, eles pareciam se preocupar bastante com o uso indevido de suas fotos. Sobretudo, com o uso das fotos sem a prévia autorização. De tanto ler sobre o assunto, a própria Joana começou a formar uma opinião, em sintonia com a maioria dos fotógrafos.

Seria de se esperar, portanto, que Joana ficasse profundamente incomodada pelo fato de a estilista ter “roubado” suas fotos, colocando-as em seu próprio blog, sem lhe pedir autorização. Entretanto, essa não foi a reação espontânea de Joana. Muito pelo contrário.

Primeiro, ela ficou imensamente lisonjeada por suas fotos terem sido mostradas em um blog tão conhecido. Jamais pensou que algo assim pudesse acontecer na sua curtíssima carreira fotográfica. Claro que, neste caso, estamos diante de uma imensa coincidência. Pois, se Joana não tivesse tido a oportunidade de fotografar uma noiva, usando um vestido daquela estilista, provavelmente suas fotos nunca apareceriam naquele blog.

Além de lisonjeada, Joana também ficou profundamente grata porque a exposição que ganhou naquele blog lhe rendeu inúmeros contatos e pedidos de orçamento. Ironicamente, o “roubo” daquelas fotos estava ajudando Joana a decolar em sua carreira fotográfica.

Logo que compreendeu o que estava se passando, Joana escreveu um lindo email para a estilista. Tratou de agradecê-la imensamente por ter mostrado suas fotos em tão badalado blog. Também aproveitou para dizer à estilista o quando achava maravilhoso seu trabalho e que, também por isso, sentia-se muito envaidecida por ter aparecido em seu blog.

O que Joana definitivamente não fez foi reprovar a atitude da estilista. Lembremos, que esta última “roubou” suas fotos e colocou-as em seu blog sem pedir autorização. Apesar da gravidade disso, inclusive em termos legais, não passou pela cabeça de Joana qualquer tipo de reprovação. E se tivesse passado, convenhamos, teria sido algo, no mínimo, mal pensado. Afinal, independente do que diga ou não diga a legislação sobre esse tópico, impossível seria negar que Joana estava sendo beneficiada com aquele episódio de um modo que jamais havia sonhado.

De fato, Joana só foi se dar conta de que havia algo errado na atitude da estilista quando, dias depois, lendo um artigo de outro fotógrafo, ela se deparou mais uma vez com aquela recorrente preocupação da classe com os “roubos” de fotos e uso indevido das mesmas, sobretudo na internet. Foi então que percebeu que, ela própria, havia sido “vítima” de um “roubo”. Afinal, a estilista jamais havia lhe pedido autorização para colocar aquelas fotos em seu blog.

Logo que percebeu isso, seus pensamentos ficaram confusos. Por um lado, havia todos aqueles artigos falando sobre os “perigos” e todo tipo de “prejuízos” que poderiam ser causados em função do “roubo” de fotos. Por outro, ela tinha passado por isso e, ao contrário do que se poderia esperar, não só não teve prejuízo algum, como já contabilizava quase dez casamentos fechados só porque suas fotos apareceram no blog da estilista.

Uso indevido ou não, o fato é que aquele discurso da corporação, que sempre fizera sentido para ela, começava a desmoronar em sua mente. O que ela percebia, agora, é que o direito autoral tem que ser respeitado, naturalmente, porém situações como a que ela vivenciou eram benéficas. Sendo assim, o que ela mais queria é que isso voltasse a ocorrer no futuro. Mas, como permitir que as pessoas usassem suas fotos, à vontade, sem ser necessário pedir permissão, com a legislação vigente sobre direito autoral?

Pensando nisso, lembrou-se que, em um dos muitos artigos que havia lido no passado, havia aparecido algo sobre um tal de Creative Commons. Não era algo positivo, na visão do artigo. De fato, a pessoa que falava brevemente sobre o assunto o classificava, erroneamente, como um “engodo”. Na época, Joana havia lido brevemente a respeito, mas não se deteve. Agora sentia a necessidade de compreender o que era realmente aquilo e qual a importância que poderia ter para seu negócio.

Acessou o site do Creative Commons, viu o vídeo que explica sua motivação, o vídeo sobre remix, e quanto mais lia, mais ficava maravilhada com as possibilidades. Logo percebeu que aquilo seria a solução para seu dilema.

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Esse é mais um capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.

O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.

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26/10/2009, 9:14

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No início, Joana não compreendeu o que levou seu trabalho a ser procurado por sete pessoas diferentes, em um único dia, após ter ficado quase um mês sem receber um único contato de interessados. Mas nós, que acompanhamos sua trajetória sem que ela própria o saiba, temos o privilégio de conhecer, em primeira mão, as causas de sua súbita ascensão.

A noiva grávida não era uma noiva qualquer. Além da peculiaridade de estar grávida, contava também com o fato de seu pai ser um homem de posses. Havia feito fortuna no campo ao longo de trinta anos de trabalho. Não tanto em função de seus esforços no campo, mas sobretudo por suas habilidades na cidade. Seu mérito era justamente compreender a cidade tão bem quanto o campo. Assim, aprendeu inúmeras formas de vender sua produção, agregando valor através do estabelecimento de marcas que se tornaram conhecidas em extensos canais de distribuição.

Tal fortuna foi bem representada na festa de casamento de sua filha. A começar pelo vestido, que foi feito por uma das estilistas mais cobiçadas do fascinante mundo dos casamentos. E foi justamente essa estilista que, quase um mês após o casório, faria mudar a sorte de Joana.

Os noivos estiveram fora por três semanas em lua-de-mel, bem longe do Brasil. Ainda no exterior, tiveram a chance de ver as fotos do casamento no Flickr de Joana. Entretanto, essa foi uma das poucas vezes em que acessaram um computador ao longo da viagem. Por essa razão, quando voltaram, tiveram inúmeros emails para responder, sendo um deles da estilista.

Era apenas um email de felicitações pelo casamento e uma espécie de despedida pela conclusão de seu trabalho com a noiva. Essa, por sua vez, respondeu agradecendo imensamente pelo lindo vestido. Além disso, enviou na mensagem o link para que a estilista visse as fotos do casamento, no Flickr de Joana.

A estilista não apenas viu as fotos, como adorou. Em parte porque estavam excelentes, mas também porque ela estava orgulhosa do vestido, que assentou muito bem na lindíssima noiva. Tudo teria terminado por aí se não estivéssemos nos referindo a uma estilista bastante sintonizada com os tempos modernos. Pois essa, além de fazer lindos vestidos, ainda encontra tempo para manter um blog super concorrido.

Seu blog não é novo. Tem pouco mais de quatro anos. Seu conteúdo pode ser considerado pouco atrativo para alguns, mas para as noivas, é uma referência de grande relevância. Por essa razão, uma infinidade delas o visita diariamente. Até porque, devemos saber que esse não é um daqueles blogs que ficam às moscas e são atualizados com pouca frequência. Ao contrário, essa estilista parece uma fonte inesgotável de informações úteis. Por isso, não apenas são raros os dias em que não há um artigo novo, como são comuns os dias em que mais de um artigo é publicado.

Como se isso não bastasse para que essa estilista fosse uma das figuras mais badaladas na área de eventos sociais, ela também foi uma das poucas pessoas que perceberam a enorme importância do Twitter logo no início. Por isso, conta atualmente com milhares de seguidores. E toda vez que um artigo novo é publicado no blog, uma mensagem é enviada no Twitter para que todos possam acessá-lo rapidamente.

Dito isso, a pergunta que nos resta é: o que Joana tem a ver com isso? Em outros tempos, nada. Mas, tendo ela sido a fotógrafa do casamento cuja noiva foi vestida por essa estilista, seus destinos se cruzaram de um modo que não poderia ser mais útil para Joana.

A estilista, que de blog entende tudo, mas de direito autoral não entende nada, pegou diversas fotos do Flickr de Joana e colocou em seu próprio blog, de modo a mostrar o vestido que havia feito para a noiva grávida. É preciso que fique claro que, perante a lei, o que ela fez é inadmissível. Afinal, estando o trabalho de Joana licenciado como copyright no Flickr, seria necessário que a estilista lhe tivesse pedido permissão para pegar as fotos e colocar em seu próprio blog. Como não o fez, estava cometendo uma falta grave.

Estivéssemos aqui apenas discutindo a lei, o assunto estaria encerrado e teríamos condenado a estilista por sua ignóbil atitude. Mas, felizmente, essa narrativa não se dá a análises tão superficiais. O que nos leva a olhar o outro lado da história.

Essa estilista não é uma pessoa qualquer que sai por aí a “roubar” fotos alheias e usá-las ao seu bel prazer. Ela é uma connector, tal como descrito no famoso livro de Malcolm Gladwell, The Tipping Point. Connector é um tipo de pessoa que, entre outras coisas, possui uma enorme rede de contatos e, por essa razão, uma incrível capacidade de influenciar comportamentos e estabelecer tendências.

Nem todos se dão conta disso, mas alguns indivíduos têm um poder desproporcional de influenciar o pensamento de outros. Enquanto a maioria das pessoas tem um pequeno circulo de amizades e, portanto, um pequeno círculo de influência, os connectors, que são pessoas raras, conhecem e mantêm contato permanente com um enorme grupo de pessoas, em diferentes áreas de atuação. Além disso, têm o hábito de apresentar pessoas de uma área a pessoas de outras, estabelecendo pontes que, de outra maneira, dificilmente existiriam. Por essa razão, têm um papel de enorme importância na sociedade.

Joana deu sorte, porque seu trabalho caiu nas mãos de uma connector. Não foi usado da maneira certa, é verdade, porém, o simples fato de suas fotos terem ido parar no blog de uma connector, lhe rendeu sete contatos só no primeiro dia. Mas, não parou por aí. Nos dias que se seguiram, muitos outros pedidos de orçamento chegaram. Tudo graças àquela estilista, que ela nem sequer conhecia, mas que, naquele ato irregular de “roubar” suas fotos, acabou, sem saber, lhe fazendo um imenso favor. Quanta ironia!

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Esse é mais um capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.

O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.

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23/10/2009, 11:13

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A caderneta de poupança de Joana foi inaugurada com grande satisfação, mas poucos recursos. O dinheirinho mirrado que foi depositado por lá não ganhou a companhia de outras somas por um bom tempo. É que as coisas deram uma esfriada depois do casamento da noiva grávida, contrariando as expectativas de Joana.

É importante lembrarmos que o segundo casamento dela ocorreu pouco depois do primeiro. Sendo assim, Joana logo pensou que a vida seria fácil. Teria um casamento depois do outro e faria um sucesso estrondoso em questão de dias. Não se pode culpá-la. Já se viu por aí alguém que tenha aberto um negócio sem pensar da mesma forma? Todos começam com expectativas infladas e com Joana não poderia ser diferente.

O duro é que a realidade logo bate à porta. E, na maior parte do tempo, o que traz a tira colo é tudo, menos o que se esperava. No caso de Joana, por exemplo, apesar de ela também ter colocado as fotos do segundo casamento na internet, e apesar de a noiva ser linda, ninguém mais procurou seu trabalho.

Claro, teve os elogios dos amigos, dos noivos, dos amigos dos noivos e tudo mais. Isso foi logo nos primeiros dias após a publicação das fotos. Mas, as coisas esfriaram em seguida e Joana não viu mais procura por seu trabalho. Tanto que, dizer que ela ficou desiludida seria um eufemismo. Ela ficou foi arrasada. E, para isso, bastaram duas semanas. Duas semanas com as fotos no ar e nada, nenhum contato. É como se ela não existisse mais.

Joana ficou deprimida. Arrastava-se com dificuldade para fora da cama, a cada dia que passava. Não queria conversar com ninguém. Tinha vergonha. Sentia-se como a rainha que perdera a majestade. Um dia, estava no auge, com um trabalho depois do outro. Sim, sabemos que foram apenas dois, mas lembremos que um veio logo depois do outro e as impressões que isso causa no ego de alguém são das mais profundas.

A tal poupança que havia sido aberta semanas antes, não podia estar mais abandonada. Ao ponto de Joana se sentir ridícula por tê-la iniciado. Pensava inclusive em encerrá-la para não alimentar falsas esperanças.

Inconscientemente, Joana começou a afastar-se dos amigos. Tinha vergonha. Definitivamente não queria conversar com ninguém e ser vista como uma fracassada. Ao mesmo tempo, não sabia o que poderia fazer para melhorar sua situação. Por mais que os meios estivessem diante de seu nariz, momentos como esse mexem com o emocional de tal forma que chegam a cegar. A solução está ali, bem na frente, mas é impossível vê-la.

Situações como essa pela qual Joana passa são tantas e tão frequentes, que, em parte, explicam porque tanta gente abandona iniciativas promissoras no meio do caminho. Joana até lembrou-se do que havia lido no Twitter um dia desses. Era uma dessas mensagens motivacionais que diziam mais ou menos assim: pessoas bem sucedidas levam rasteiras e golpes da vida, como qualquer outra, mas o que as diferencia é o fato de levantarem sempre.

E isso é uma verdade. A história dos empreendedores está repleta de casos em que, um dia, a pessoa tinha tudo. No outro, não tinha nada. No Brasil, um dos mais emblemáticos é, sem dúvidas, o de Irineu Evangelista de Souza, mais conhecido como Barão de Mauá ou Visconce de Mauá. A biografia do Barão de Mauá merece ser conhecida, pois dá a real dimensão dos desafios porque passa um empreendedor. E, no caso dele, que empreendedor! Foram muitas as idas e vindas.

Infelizmente Joana não conhece a história dele e de tantos outros empreendedores de sucesso, que tiveram que tropeçar, cair e levantar uma infinidade de vezes até atingir o sucesso. Por outro lado, como ela é uma moça de sorte, sua “penúria” não durou tanto assim.

Perto de completar um mês de total “abandono”, Joana abre o email de manhã e se depara com duas mensagens de pessoas interessadas em seu trabalho. Uma queria contratá-la para um aniversário de 15 anos, enquanto a outra era para um casamento. Joana não entendeu nada, mas animou-se, naturalmente. O mais estranho é que, ao final daquele dia, contaram-se sete mensagens de contato. Como é possível ficar um mês sem nenhum contato de pessoas interessadas em seu trabalho e, de repente, do nada, aparecerem sete de uma vez só?

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O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Haverá um capítulo por dia, sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.

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22/10/2009, 12:38

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O casamento da noiva grávida foi igualmente tenso para Joana, mas bem menos que aquele primeiro, da Mari e do Nando. Tratar as fotos também deu trabalho, apesar de os erros já terem sido menos frequentes. Mas, o que ela começou a perceber é que sua câmera, aquela D90 que tinha comprado com a ajuda do paitrocínio, era boa, mas ainda deixava a desejar.

Fotógrafos são assim. Sempre acham que o equipamento mais novo irá tornar as fotos infinitamente melhores. Portanto, estão sempre querendo a nova câmera, que acabou de ser lançada, a nova lente, que tem características jamais vistas, enfim, o novo equipamento que irá revolucionar seu trabalho. Antes que possamos culpá-los e rotulá-los de consumistas, temos que admitir uma coisa. Os equipamentos realmente melhoram a olhos vistos com uma rapidez enorme. E, nas mãos de fotógrafos competentes, aprimoram o trabalho final.

Joana não demorou para se dar conta disso. Já tinha experimentado uma grande melhoria ao migrar da D40 para a D90. Lembrando que a mudança não se deu só na câmera. Ela também havia partido para uma lente melhor. E, como era exigente, já se pegava pensando em como as coisas seriam se pudesse ir além. Só havia um problema: não tinha dinheiro.

Como já sabemos, Joana vivia em uma família de poucas posses. Os pais conseguiram criar os filhos e lhes dar a necessária educação. Mas, nunca houve luxos. Ou, se houve, foram raros. O maior patrimônio da família era a casa. Uma construção modesta, que dava na conta para a quantidade de pessoas que ali habitavam. Mas, praticamente nunca sobrava dinheiro no fim do mês. O que não chega a ser uma situação incomum. É exatamente o mesmo que ocorre em tantas outras famílias.

Nesse ponto, Joana sempre teve certa inveja de Jubi. Não que sua amiga tenha sido criada em uma família abastada. Mas, havia uma diferença. Enquanto os pais de Joana se apertavam praticamente todos os meses, a família de Jubi parecia não se apertar nunca. Viviam modestamente, mas se fosse necessário fazer algo fora do usual, que demandasse um pouco mais de recursos financeiros, o dinheiro sempre aparecia.

Joana levou muito tempo para entender aquilo. Tinha vergonha de perguntar a Jubi como sua mãe sempre conseguia pagar o que fosse necessário, mesmo nos tantos momentos de crise pelas quais o Brasil passou. Às vezes, quando uma cidade inteira ia mal das pernas e o comércio sofria, a loja da mãe de Jubi estava sempre aberta e os fornecedores nunca se queixavam de pagamentos atrasados. Como ela fazia isso era um mistério que Joana só compreendeu pouco tempo antes de Guga aparecer em casa com a D40.

Nem lembrava mais o motivo. Só sabia que em uma dessas noites, em que conversava com Jubi pelo iChat, surgiu o assunto e ela finalmente perguntou, após tantos anos, o que sua mãe fazia para lidar tão bem com o dinheiro. Jubi, que também já havia aprendido a técnica com a mãe, respondeu com orgulho:

— Não tem segredo nenhum. É só disciplina mesmo. Minha mãe aprendeu desde cedo a cultivar uma boa reserva financeira. Então, quando as coisas vão mal, ela usa o dinheiro da reserva para compensar. Se vão bem, ela coloca dinheiro de volta na reserva.

Não há nada de novo, nem de original na técnica usada pela mãe de Jubi. Ela existe desde que o mundo é mundo. Mas, o fato de estar aí, ao alcance de todos, não significa que seja fácil de ser colocada em prática. Afinal, não vivemos em um mundo qualquer. Esse é um lugar de tentações. A todo instante, para onde quer que olhemos, encontramos incentivos para gastar.

É que temos uma necessidade insaciável de recompensas. E o dinheiro é um ótimo instrumento para criar recompensas. Sente-se um pouco triste hoje? Que tal comprar uma barra de chocolate? Entediado? Que tal um videogame? A autoestima anda em baixa? Por que não comprar roupas novas? Motivos não faltam para buscar recompensas. Todas estão lá, a sua disposição, por uma quantia em dinheiro.

Dinheiro não traz felicidade, mas há quem diga que, com um bom cartão de crédito, qualquer um pode encomendá-la. Seja essa felicidade efêmera ou não, o fato é que razões para gastar abundam. O que falta é motivação para guardar.

Algumas pessoas, entretanto, aprendem desde cedo que cultivar umas moedas no cofrinho tem seu valor e, por vezes, viabiliza recompensas maiores e mais duradouras. É justamente o caso da mãe de Jubi que, não se sabe bem como, aprendeu desde cedo essa arte, que coloca em ação diariamente, com incrível naturalidade.

Agora, diante do desejo de comprar uma nova câmera, Joana entende melhor o que tudo isso quer dizer. Sobretudo aquela parte que diz respeito a “viabilizar recompensas maiores e mais duradouras”. Uma câmera nova certamente poderia ser enquadrada nessa categoria. Seja como for, Joana infelizmente não tinha o que fazer. Não só lhe faltava o dinheiro para a câmera, como também lhe faltavam reservas financeiras.

O que recebeu pelo casamento da noiva grávida não seria suficiente para pagar uma nova câmera. E, para piorar, já estava todo comprometido. Com ele iria pagar sua parte na vaquinha da festa de formatura do seu curso de Biologia. E a sobra ia para o vestido, que já estava sendo confeccionado. Saldo final: alguns trocados que não dariam para nada.

Bem, também não é assim né? Como Joana é uma moça inteligente e já começava a cultivar um pouco do pensamento positivo que os empreendedores costuma ter, logo se deu conta que esses trocados que restavam até que dariam para alguma coisa sim. Seria suficientes para começar a fazer um pé de meia.

Ainda que fosse apenas um mísero real. É melhor ter R$ 1 de reserva do que não ter nenhum. E devemos sempre lembrar que todo cofrinho precisou primeiro receber uma primeira moeda, antes de um dia ficar cheio. Em outras palavras, toda jornada longa começa com um primeiro passo. Então, que seja dado o primeiro passo.

Joana usou o saldo final do que ganhou com seu segundo casamento para começar a montar uma reserva financeira. Temia que fossem necessários anos para chegar ao ponto de ter um cofrinho bem alimentado. Ainda assim, abriu uma caderneta de poupança e deu o primeiro passo para se tornar livre.

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19/10/2009, 14:35

Na semana passada eu estive em São Paulo para o Rails Summit 2009. Deveria ter escrito os capítulos de O Mundo de Joana antes da viagem, mas infelizmente só consegui escrever um. A semana foi muito intensa por lá e quando voltei ao Rio, recebi a visita de meus amigos de Natal. Também vieram para o Rio alguns amigos estrangeiros. Como bom “carioca adotado”, fiz o que pude para lhes mostrar um pouco das maravilhas da cidade, para que eles não só pudessem voltar para casa com ótimas lembranças, como também pudessem chegar lá com vontade de voltar ao Rio muitas outras vezes.

Em função de tudo isso, infelizmente não consegui escrever os capítulo de O Mundo de Joana nessa semana que passou. A boa notícia é que isso serviu para algumas pessoas colocarem a leitura em dia. Mas, naturalmente, espero que isso não se repita novamente. Farei o que estiver ao meu alcance para que o autor seja mais responsável da próxima vez e pense em seus leitores em primeiro lugar. :-)

Aliás, já que estamos nesse assunto, devo dizer que a programação normal deve ser retomada amanhã ou na quarta. Entretanto, haverá uma pequena mudança. Daqui por diante teremos apenas textos e não mais as fotos. Sei que as fotos são importantes e ajudam a dar um pouco mais de leveza a cada capítulo. Por outro lado, selecionar a foto certa consome um tempo enorme. Como desejo que O Mundo de Joana tenha continuidade, de forma sustentável, para seu já bem atarefado autor, decidi deixar as fotos de lado.

Para aqueles que se sentiram traídos pela ausência dos capítulos da semana passada, deixo abaixo a minha palestra na Rails Summit 2009, cujo assunto tem muito a ver com empreendedorismo e tudo o que é tratado em O Mundo de Joana. Claro que não espero que isso compense minha falta com vocês, mas espero que possa aliviar as coisas.

A palestra foi gentilmente gravada e disponibilizada pelo Hugo Borges, a quem eu agradeço imensamente. Ela também pode ser vista diretamente no Blip.tv.

Por fim, um agradecimento super especial ao Leandro Mello. Se ele não tivesse segurado as pontas aqui na empresa ao longo da semana passada, nada disso teria sido possível. Muito obrigado, Leandro!!!

13/10/2009, 9:50

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Foto de Mark Berry (CC)

É certo afirmar que não se passou muito tempo entre aquela conversa de Joana com Seu Zé e sua formatura. Entre contar ao pai que se formaria em Biologia, mas se tornaria uma fotógrafa, e a formatura propriamente dita, passaram-se apenas alguns meses. Mas, é como se tivessem sido anos.

Devemos lembrar que o primeiro casamento que Joana fotografou lhe gerou um enorme problema. Ao menos fora percebido como tal, assim que lhe foi apresentado. Era preciso colocar as fotos na internet. As quais, Joana julgava estarem muito aquém do ideal.

O tormento de Joana felizmente chegou ao fim, sobretudo após Jubi lhe mostrar que publicar as fotos era a melhor opção. Então, Joana fez o que já havia feito em tantos outros casos anteriores, porém com fotos menos importantes: publicou as fotos no Flickr. Já usava o Flickr para publicar suas fotos há bastante tempo, portanto, não houve qualquer dificuldade.

Como era de se imaginar, uma vez na internet, as fotos foram acessadas por inúmeros amigos de Joana, do casal de noivos e da própria tia de Mari que havia servido de motivo para a publicação das fotos. É preciso dizer que, apesar de estar racionalmente convencida de que publicar as fotos fazia sentido, Joana sentiu-se muito desconfortável ao fazer aquilo.

Felizmente, tal desconforto não durou muito. Foram exatos três dias até ela receber a ligação. A última aula do dia estava terminando na UENF, quando o celular de Joana começou a vibrar. Ela não reconheceu o número, mas ainda assim correu para fora da sala e atendeu.

Uma moça, que Joana desconhecia, identificou-se como amiga de uma das madrinhas de casamento da Mari. Ela tinha visto as fotos de Joana no Flickr e lhe explicou que iria se casar em algumas semanas. Tinha descoberto poucos dias antes que estava grávida.

Não era uma gravidez esperada. Muito pelo contrário. A moça estava no primeiro ano de sua faculdade e namorava um rapaz há apenas quatro meses. Eles haviam se conhecido em uma chopada, logo depois do início das aulas. O começo do namoro não tardou, assim como não tardou a imprudência.

Quando finalmente percebeu que estava grávida, foi contar ao namorado, aos prantos. Esse, não sabia se corria, se fugia, se chorava, se gritava, se jogava-se de cabeça em uma parede, se chutava o pé da mesa, ou se gostava da notícia. Por fim, escolheu o choro. Pela primeira vez começava a se dar conta do que seria transformar-se em um adulto.

Ele gostava da namorada, mas nunca tinha pensado em ter um filho com ela. Não era o que desejava. Era novo demais para isso. Como pôde ser tão imprudente? E por quê? Por que isso aconteceu? Que tremendo azar! Afinal, só deixaram de se proteger uma única vez!

A vida é assim, não é mesmo? É como uma teoria. Para provar que está correta, é necessário enorme esforço. Mas, para provar que está errada, basta apresentar um único caso em que a teoria falhe. Por sua vez, uma pessoa pode construir uma reputação excepcional durante anos a fio. Basta uma única atitude incorreta para a reputação inteira cair por terra.

No caso daquele namorado, não bastou ser prudente todas as outras vezes. No fim, foi suficiente que houvesse um único ato de imprudência e pronto, estava selado seu destino de pai. Aliás, falando em pai, é de se imaginar que o pai da moça não gostou nada da história.

Nesse caso, a coisa chegava a ser cômica. Pois o imaginário popular é bem povoado de pais de donzelas que correm atrás de rapazes com espingarda em punho, para que levem suas respectivas filhas ao altar. Essa imagem é tão comum na mente das pessoas que não é difícil supor que exista apenas nos livros, filmes e outras obras de ficção. Entretanto, se é correto dizer que muitas vezes a arte imita a realidade, é também acertado afirmar que em muitos casos é exatamente o oposto que ocorre. Ou seja, é a realidade que imita a arte.

Pois no caso desse moço, não tardou para ele próprio se ver diante de uma cena de novela. Foi quando abriu a porta de sua casa e deu de cara com um cano de espingarda. Aliás, um não, dois. Dois canos que de tão ameaçadores, quase lhe mataram, mas não pela força das balas, e sim pelo impacto do susto.

O pai da donzela não deixou margem para dúvidas. O moço teria duas alternativas, a saber:

  1. Acompanhar o pai da moça até o cartório, naquele exato momento, para marcar a data do casamento. Sendo que a mais próxima seria também a mais apropriada; ou
  2. Perder a vida ali, naquele momento, sem cerimônia.

Antes que o rapaz tivesse chance de responder, o pai informou-lhe que, particularmente, preferia a escolha da segunda alternativa. Entretanto, considerando-se que, neste caso, seu neto seria privado de um pai, ele admitia ser mais recomendável que o moço optasse pela primeira alternativa.

Como já foi dito antes e merece ser repetido, episódios como esse, de tão folclóricos logo levantam suspeitas de sua própria existência em tempos tão modernos. Entretanto, faz-se necessário compreender que não é porque vivemos em um mundo cada vez mais avançado tecnologicamente que as pessoas também se comportam como se avançadas fossem. A tecnologia avança rapidamente, é verdade, mas a mentalidade não. E se isso já não fosse suficientemente verdadeiro nas grandes capitais, imagine em São João da Barra.

Nada disso Joana ficou sabendo naquela ligação, exceto a gravidez da moça. Mas, histórias como essa não se dão ao luxo de cair no conhecimento de poucos. Lembremos mais uma vez que tudo isso se passa em São João da Barra, o que nos isenta da necessidade de fornecer maiores detalhes de como Joana veio a saber de tudo isso.

Em todo caso, o que importa para a continuidade dessa narrativa é saber que a moça não conseguia achar alguém que pudesse fotografar seu casamento que tão próximo estava. Naturalmente, os fotógrafos já estavam ocupados com trabalhos que haviam sido fechados muito tempo antes. Daí que a moça, noiva há tão pouco tempo, perguntava a Joana se ela poderia fotografar seu casamento.

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