Samuca começava seu email com algumas perguntas: Joana, quando você vai ao supermercado, você sai sem pagar as compras? O supermercado te dá de presente os produtos de que você precisa para seu dia a dia? E na farmácia, você recebe os produtos de graça? Você come de graça no restaurante? Você usa luz, telefone, água, sem pagar? Se você paga por tudo isso, Joana, por que você acha que as pessoas não deveriam pagar por suas fotos? Você não gosta de receber pelo trabalho que faz?
Pensando bem, essas são perguntas bastante coerentes. Afinal, se todos recebem pelo trabalho que realizam, o fotógrafo também deveria receber pelas fotos que faz. Nada mais justo.
Samuca continuava o email afirmando que ela estava “canibalizando” a fotografia de casamento. Ou seja, segundo ele, Joana estava adotando práticas que iriam desvalorizar o trabalho dos fotógrafos, o que prejudicava ele, os demais fotógrafos e ela própria. Considerava que seu movimento na direção do Creative Commons era um erro grave. Na sua visão, Joana queria crescer rápido demais, e para isso estava adotando atalhos e usando práticas predatórias.
Essa era a única explicação aceitável, na visão de Samuca, para se compreender a razão pela qual um fotógrafo adotaria o Creative Commons. Para ele, era como se o fotógrafo estivesse dando seu trabalho de mão beijada para os outros, sem nenhum critério, a troco não se sabe bem de quê.
Samuca continuava sua missiva eletrônica informando que vinha acompanhando o trabalho de Joana através da internet. Considerava as fotos imaturas e de qualidade sofrível. Mas também, o que se poderia esperar de uma novata, não é mesmo?
Seguia adiante afirmando que faltava a Joana alguma originalidade. Pois, identificava que as fotos que ela vinha fazendo “claramente” procuravam imitar seu trabalho. De onde lançou a pergunta: será que custa tanto buscar um caminho próprio? Será, Joana, que sua única alternativa é “me copiar”?
É preciso dizer, a bem da verdade, que essa parte do email de Samuca foi lida mais de uma dezena de vezes, tamanha a incredulidade de Joana diante do que estava escrito. Afinal, como poderia ela estar copiando-o, se nem sequer era possível ver a maior parte de seu trabalho na internet? Como poderia ela estar copiando-o, se tudo era fechado com login e senha?
De fato, uma questão e tanta a ser resolvida. Mas, não a única. O próximo tópico referia-se ao preço que Joana vinha cobrando, que ele considerava “preocupante”. Dizia que Joana estava cobrando valores demasiadamente baixos para ganhar mercado rapidamente. Mas, acreditava que aquilo eventualmente iria voltar-se contra ela própria. Daí que lançou a sarcástica pergunta: Joana, já que você me copia nas fotos, não seria melhor aproveitar e copiar também os valores?
Samuca ponderava que as práticas comerciais que Joana começava a esboçar, cobrando pouco por seu trabalho, e ainda “dando tudo de graça na internet”, prejudicavam a concorrência, mas acabariam por prejudicar a própria Joana futuramente. Ou seja, se ela levasse o mercado todo a praticar preços menores, todos perderiam. Nesse aspecto, Samuca até que teria alguma razão, se a justificativa pelo preço menor adotado por Joana fosse realmente uma vontade de “passar por cima da concorrência”, o que estava longe de ser o caso, como logo saberemos.
Para concluir, Samuca afirmava que, na tentativa de ser “malandra”, Joana estava era sendo muito ingênua. Será que ela e o resto dos fotógrafos não conseguiam perceber que o Creative Commons é um grande “engodo”? Seria assim tão difícil se dar conta da “grande verdade”?
Para Samuca, além de desvalorizar os fotógrafos, o Creative Commons servia aos interesses daqueles que queriam utilizar o trabalho alheio sem pagar por ele. Acreditava que revistas, jornais, designers e muitos outros se beneficiavam do Creative Commons, porque assim podiam usar as fotos de fotógrafos “tapados”, livremente, de graça e sem que o fotógrafo jamais recebesse um centavo por seu trabalho. Ora, será tão difícil perceber que isso é o cúmulo da desvalorização de um profissional? Como é possível que tantos fotógrafos caiam nessa “armadilha”?
Joana ficou atônita e duvidando dos próprios olhos. Não conseguia acreditar que alguém, sobretudo o Samuca, cujo trabalho ela conhecia há anos, tivesse escrito tudo aquilo e de forma tão agressiva. Os pontos levantados sobre o Creative Commons eram importantes, sem dúvida. Mas a forma como escreveu o email não podia ter sido pior.
É como se ele quisesse esmagá-la e retirá-la do caminho a todo custo. O tom do email, que podia ser captado em inúmeras passagens que não foram transcritas aqui, revelavam o ódio que Samuca vinha nutrindo por Joana.
O pior é que, até então, Joana gostava de Samuca e admirava seu trabalho. Portanto, foi com enorme surpresa que recebeu aquela mensagem. Não tanto pelas questões levantadas, que levariam Joana a refletir bastante, mas sobretudo por essa maneira de se dirigir a ela, que por transbordar de raiva, chocava em um primeiro momento, mas fazia pensar se não havia algo mais nessa história. Algo que não tinha muito a ver com a fotografia em si, mas talvez com um ego ferido.
De fato, para nós que somos meros observadores, é desnecessário dizer que o problema de Samuca era outro. O que sentia em relação a Joana era uma dor-de-cotovelo que cresceu a um tal ponto de não poder mais ser cultivada, em isolamento, no campo fértil de sua alma. A ascensão de Joana começou a lhe incomodar tanto, que quando viu a questão do Creative Commons, chegou a agradecer em seu íntimo por Joana ter lhe dado a deixa para uma ofensiva.
O ciúme de Samuca ao ver o sucesso de uma menina, cuja idade não chegava sequer ao tempo que ele tinha de profissão, estava corroendo-o sem que ele próprio percebesse o quanto. Pelo menos nisso ele não deveria se sentir sozinho. Afinal, a ciumeira parece brotar com facilidade em diversas profissões, sobretudo naquelas com teor mais artístico, como a fotografia. Portanto, Samuca estava em boa companhia. Tantos são os portadores de dor-de-cotovelo que sua mensagem, que havia sido devidamente copiada para uma lista de discussão, não chegava a causar surpresa.
Aliás, enviar a mensagem também para uma lista de discussão badalada foi a cereja no topo do bolo. Afinal, se era para achincalhar a pobre Joana, que houvesse testemunhas. E que testemunhas! Pois não teve um único na lista que se levantasse para defendê-la. Ao contrário. Inúmeros fotógrafos “apedrejaram” a menina, cuja reputação, antes mesmo que pudesse ser construída, acabava de ser sepultada.
Samuca divertia-se ao ver as reações na lista de discussão. As mensagens não paravam de chegar e a revolta popular revelava o número assustador de colegas que, como Samuca, sentiam-se ameaçados pelas novidades e pela entrada de novos profissionais na área. Naquele momento, Joana cumpria o não muito honroso papel de “saco-de-pancadas” para aliviar as ansiedades da moçada.
Os efeitos de tudo isso para Joana foram profundos. Mas, antes que venhamos a sabê-lo, é necessário analisar com calma os pontos levantados por Samuca sobre o Creative Commons. Afinal, quem vai querer ser o ingênuo que entrega a presa para o lobo, de mão beijada?
Esse é mais um capítulo de uma série de posts que compõem uma história maior, intitulada O mundo de Joana. Veja o primeiro capítulo.
O mundo de Joana é uma história criada para divertir e fazer pensar. Os capítulos são sempre publicado aqui no blog do Be on the Net. O formato usado aqui foi inspirado no excelente livro de empreendedorismo O Segredo de Luisa, de Fernando Dolabela. Sobre empreendedorismo é recomendável também a leitura do livro Caindo na Real da 37signals.
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By Vinícius Teles. Disponibilizado como Creative Commons Atribuição 2.5.
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